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<?phpnamespace Faker\Provider\pt_BR;class Text extends \Faker\Provider\Text{/*** The Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis** This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most* other parts of the world at no cost and with almost no restrictions* whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of* the Project Gutenberg License included with this eBook or online at* www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have* to check the laws of the country where you are located before using this ebook.** Title: Dom Casmurro** Author: Machado de Assis** Release Date: October 15, 2017 [EBook #55752]** Language: Portuguese** *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ***** Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free* Literature (online soon in an extended version,also linking* to free sources for education worldwide ... MOOC's,* educational materials,...) (Images generously made available* by the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)** DOM CASMURRO** POR** MACHADO DE ASSIS** DA ACADEMIA BRAZILEIRA** H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR** RUA MOREIRA CEZAR, 71** RIO DE JANEIRO** 6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6** PARIZ** @see https://www.gutenberg.org/cache/epub/55752/pg55752.txt** @var string*/protected static $baseText = <<<'EOT'IDo titulo.Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei notrem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista ede chapéo. Comprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua edos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e osversos póde ser que não fossem inteiramente maus. Succedeu, porém, quecomo eu estava cançado, fechei os olhos tres ou quatro vezes; tantobastou para que elle interrompesse a leitura e mettesse os versos nobolso.--Continue, disse eu accordando.--Já acabei, murmurou elle.--São muito bonitos.Vi-lhe fazer um gesto para tiral-os outra vez do bolso, mas não passoudo gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomesfeios, e acabou alcunhando-me _Dom Casmurro._ Os visinhos, que nãogostam dos meus habitos reclusos e calados, deram curso á alcunha, queafinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anecdota aos amigos dacidade, e elles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: «DomCasmurro, domingo vou jantar com você.»--«Vou para Petropolis, DomCasmurro; a casa é a mesma da Rhenania; vê se deixas essa caverna doEngenho Novo, e vae lá passar uns quinze dias commigo.»--«Meu caro DomCasmurro, não cuide que o dispenso do theatro amanhã; venha e dormiráaqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhedou moça.»Não consultes diccionarios. _Casmurro_ não está aqui no sentido queelles lhe dão, mas no que lhe poz o vulgo de homem calado e mettidocomsigo. _Dom_ veiu por ironia, para attribuir-me fumos de fidalgo.Tudo por estar cochilando! Tambem não achei melhor titulo para a minhanarração; se não tiver outro d'aqui até ao fim do livro, vae estemesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor.E com pequeno esforço, sendo o titulo seu, poderá cuidar que a obraé sua. Ha livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nemtanto.II.Do livro.Agora que expliquei o titulo, passo a escrever o livro. Antes disso,porém, digamos os motivos que me põem a penna na mão.Vivo só, com um creado. A casa em que moro é propria; fil-aconstruir de proposito, levado de um desejo tão particular que mevexa imprimil-o, mas vá lá. Um dia, ha bastantes annos, lembrou-mereproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua deMatacavallos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquella outra,que desappareceu. Constructor e pintor entenderam bem as indicaçõesque lhes fiz: é o mesmo predio assobradado, tres janellas de frente,varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, apintura do tecto e das paredes é mais ou menos egual, umas grinaldas deflores miudas e grandes passaros que as tomam nos bicos, de espaço aespaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centrodas paredes os medalhões de Cesar, Augusto, Nero e Massinissa, com osnomes por baixo... Não alcanço a razão de taes personagens. Quandofomos para a casa de Matacavallos, já ella estava assim decorada; vinhado decennio anterior. Naturalmente era gosto do tempo metter saborclassico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é tambemanalogo e parecido. Tenho chacarinha, flôres, legume, uma casuarina, umpoço e lavadouro. Uso louça velha e mobilia velha. Emfim, agora, comooutr'ora, ha aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, coma exterior, que é ruidosa.O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar navelhice a adolescencia. Pois, senhor, não consegui recompor o que foinem o que fui. Em tudo, se o rosto é egual, a physionomia é differente.Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menosdas pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O queaqui está é, mal comparando, semelhante á pintura que se põe na barba enos cabellos, e que apenas conserva o habito externo, como se diz nasautopsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinteannos de edade poderia enganar os extranhos, como todos os documentosfalsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente;todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto ásamigas, algumas datam de quinze annos, outras de menos, e quasi todascreem na mocidade. Duas ou tres fariam crer nella aos outros, mas alingua que falam obriga muita vez a consultar os diccionarios, e talfrequencia é cançativa.Entretanto, vida differente não quer dizer vida peor; é outra cousa.A certos respeitos, aquella vida antiga apparece-me despida de muitosencantos que lhe achei; mas é tambem exacto que perdeu muito espinhoque a fez molesta, e, de memoria, conservo alguma recordação doce efeiticeira. Em verdade, pouco appareco e menos falo. Distracções raras.O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmomal.Ora, como tudo cança, esta monotonia acabou por exhaurir-me tambem.Quiz variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudencia,philosophia e politica acudiram-me, mas não me acudiram as forçasnecessarias. Depois, pensei em fazer uma _Historia dos Suburbios_,menos secca que as memorias do padre Luiz Gonçalves dos Santos,relativas á cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas,como preliminares, tudo arido e longo. Foi então que os bustos pintadosnas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que elles nãoalcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da penna e contassealguns. Talvez a narração me désse a illusão, e as sombras viessemperpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do _Fausto: Ahivindes outra vez, inquietas sombras...?_Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a penna namão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande Cesar, que me incitasa fazer os meus commentarios, agradeço-vos o conselho, e vou deitar aopapel as reminiscencias que me vierem vindo. Deste modo, viverei o quevivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemosa evocação por uma celebre tarde de Novembro, que nunca me esqueceu.Tive outras muitas, melhores, e peores, mas aquella nunca se me apagoudo espirito. É o que vás entender, lendo.IIIA denuncia.Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome eescondi-me atraz da porta. A casa era a da rua de Matacavallos, o mezNovembro, o anno é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar asdatas á minha vida só para agradar ás pessoas que não amam historiasvelhas; o anno era de 1857.--D. Gloria, a senhora persiste na ideia de metter o nosso Bentinho noseminario? É mais que tempo, e já agora póde haver uma difficuldade.--Que difficuldade?--Uma grande difficuldade.Minha mãe quiz saber o que era. José Dias, depois de alguns instantesde concentrarão, veiu ver se havia alguem no corredor; não deu por mim,voltou e, abafando a voz, disse que a difficuldade estava na casa aopé, a gente do Padua.--A gente do Padua?--Ha algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Nãome parece bonito que o nosso Bentinho ande mettido nos cantos com afilha do _Tartaruga_, e esta é a difficuldade, porque se elles pegam denamoro, a senhora terá muito que lutar para separal-os.--Não acho. Mettidos nos cantos?--É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quasique não sae de lá. A pequena é uma desmiolada; o pae faz que não vê;tomara elle que as cousas corressem de maneira, que... Comprehendo oseu gesto; a senhora não crê em taes calculos, parece-lhe que todos têma alma candida...--Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vinada que faça desconfiar. Basta a edade; Bentinho mal tem quinze annos.Capitú fez quatorze á semana passada; são dous creançolas. Não seesqueça que foram criados juntos, desde aquella grande enchente, hadez annos, em que a familia Padua perdeu tanta cousa; d'ahi vieram asnossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?Tio Cosme respondeu com um «Ora!» que, traduzido em vulgar, queriadizer: «São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eudivirto-me; onde está o gamão?»--Sim, creio que o senhor está enganado.--Póde ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não faleisenão depois de muito examinar...--Em todo caso, vae sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar demettel-o no seminario quanto antes.--Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho oprincipal. Bentinho ha de satisfazer os desejos de sua mãe. E depoisa egreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispopresidiu a Constituinte, e que o padre Feijó governou o imperio...--Governou como a cara d'elle! atalhou tio Cosme, cedendo a antigosrancores politicos.--Perdão, doutor, não estou defendendo ninguem, estou citando. O que euquero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.--Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto aopequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizermissa atraz das portas. Mas, olhe cá, mana Gloria, ha mesmo necessidadede fazel-o padre?--É promessa, ha de cumprir-se.--Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei...Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?--Eu?--Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus éque sabe do todos. Comtudo, uma promessa de tantos annos... Mas, queé isso, mana Gloria? Está chorando? Ora esta! Pois isto é cousa delagrimas?Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantoue foi ter com ella. Seguiu-se um alto silencio, durante o qual estivea pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Nãopude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justinaexhortava: «Prima Gloria! prima Gloria!» José Dias desculpava-se: «Sesoubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, peloaffecto, para cumprir um dever amargo, um dever amarissimo...»IVUm dever amarissimo!José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumentalás ideias; não as havendo, servir a prolongar as phrases. Levantou-separa ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito áparede, e vi-o passar com as suas calças brancas engommadas, presilhas,rodaque e gravata de mola. Foi dos ultimos que usaram presilhas no Riode Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lheficassem bem esticadas. A gravata de setim preto, com um aro de açopor dentro, immobilisava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque dechita, veste caseira o leve, parecia nelle uma casaca de cerimonia. Eramagro, chupado, com um principio de calva; teria os seus cincoenta ecinco annos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquellevagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, umsyllogismo completo, a premissa antes da consequencia, a consequenciaantes da conclusão. Um dever amarissimo!VO aggregado.Nem sempre ia naquelle passo vagaroso e rigido. Tambem se descompunhaem accionados, era muita vez rapido e lepido nos movimentos, tãonatural nesta como naquella maneira. Outrosim, ria largo, se erapreciso, de um grande riso sem vontade, mas communicativo, a tal pontoas bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, todo a pessoa, todo omundo pareciam rir nelle. Nos lances graves, gravissimo.Era nosso aggregado desde muitos annos; meu pae ainda estava naantiga fazenda de Itaguahy, e eu acabava de nascer. Um dia appareceualli vendendo-se por medico homeopatha; levava um _Manual_ e umabotica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitore uma escrava, e não quiz receber nenhuma remuneração. Então meupae propoz-lhe ficar alli vivendo, com pequeno ordenado. José Diasrecusou, dizendo que era justo levar a saude á casa de sapé do pobre.--Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quizer, mas fiquemorando comnosco.--Voltarei daqui a tres mezes.Voltou dalli a duas semanas, acceitou casa e comida sem outroestipendio, salvo o que quizessem dar por festas. Quando meu pae foieleito deputado e veiu para o Rio de Janeiro com a familia, elle veiutambem, e teve o seu quarto ao fundo da chacara. Um dia, reinandooutra vez febres em Itaguahy, disse-lhe meu pae que fosse ver a nossaescravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabouconfessando que não era medico. Tomára este titulo para ajudar apropaganda da nova escola, e não o fez sem estudar muito e muito; mas aconsciencia não lhe permittia acceitar mais doentes.--Mas, você curou das outras vezes.--Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram os remediosindicados nos livros. Elles, sim, elles, abaixo de Deus. Eu era umcharlatão... Não negue; os motivos do meu procedimento podiam ser eeram dignos; a homeopathia é a verdade, e, para servir á verdade,menti; mas é tempo de restabelecer tudo.Não foi despedido, como pedia então; meu pae já não podia dispensal-o.Tinha o dom de se fazer acceito e necessario; dava-se por falta delle,como de pessoa de familia. Quando meu pae morreu, a dôr que o pungiufoi enorme, disseram-me, não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muitograta, e não consentiu que elle deixasse o quarto da chacara; ao setimodia, depois da missa, elle foi despedir-se della.--Fique, José Dias.--Obedeço, minha senhora.Teve um pequeno legado no testamento, uma apolice e quatro palavras delouvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto,por cima da cama. «Esta é a melhor apolice», dizia elle muita vez. Como tempo, adquiriu certa autoridade na familia, certa audiencia, aomenos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, nãodirei optimo, mas nem tudo é optimo neste mundo. E não lhe supponhasalma subalterna; as cortezias que fizesse vinham antes do calculoque da indole. A roupa durava-lhe muito; ao contrario das pessoasque enxovalham depressa o vestido novo, elle trazia o velho escovadoe liso, cirzido, abotoado, de uma elegancia pobre e modesta. Eralido, posto que de atropello, o bastante para divertir ao serão e ásobremesa, ou explicar algum phenomeno, falar dos effeitos do calor edo frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem quefizera á Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria voltadopara lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa familia, dizia elle,abaixo de Deus, era tudo.--Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.--Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração.E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver que elle punha Deus nodevido logar, e sorriu approvando. José Dias agradeceu de cabeça. Minhamãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que eraadvogado, confiava-lhe a copia de papeis de autos.VITio Cosme.Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ella enviuvou. Já então eraviuvo, como prima Justina; era a casa dos tres viuvos.A fortuna troca muita vez as mãos á natureza. Formado para as serenasfunccões do capitalismo, tio Cosme não enriquecia no fòro: ia comendo.Tinha o escriptorio na antiga rua das Violas, perto do jury, que era noextincto Aljube. Trabalhava no crime. José Dias não perdia as defesasoraes de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitoscomprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por maismodesto que quizesse ser, sorria de persuasão.Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos.Uma das minhas recordações mais antigas era vel-o montar todas asmanhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escriptorio.O preto que a tinha ido buscar á cocheira, segurava o freio, emquantoelle erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto dedescanço ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpoameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, egual effeito. Emfim,após alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forçasphysicas e moraes, dava o ultimo surto da terra, e desta vez caía emcima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto queacabava de receber o mundo. Tio Cosme accommodava as carnes, e a bestapartia a trote.Tambem não me esqueceu o que elle me fez uma tarde. Posto que nascidona roça (donde vim com dous annos) e apezar dos costumes do tempo,eu não sabia montar, e tinha medo ao cavallo. Tio Cosme pegou em mime escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha noveannos), sósinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei a gritardesesperadamente: «Mamãe! mamãe!» Ella acudiu pallida e tremula, cuidouque me estivessem matando, apeou-me, affagou-me, emquanto o irmãoperguntava:--Mana Gloria, pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa?--Não está acostumado.--Deve acostumar-se. Padre que seja, se fôr vigario na roça, é precisoque monte a cavallo; e, aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quizerflorear como os outros rapazes, e não souber, ha de queixar-se de você,mana Gloria.--Pois que se queixe; tenho medo.--Medo! Ora, medo!A verdade é que eu só vim a apprender equitação mais tarde, menos porgosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. «Agora é queelle vae namorar devéras», disseram quando eu comecei as licções. Nãose diria o mesmo de tio Cosme. Nelle era velho costume e necessidade.Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi acceito de muitasdamas, além de partidario exaltado; mas os annos levaram-lhe o maisdo ardor politico e sexual, e a gordura acabou com o resto de ideiaspublicas e especificas. Agora só cumpria as obrigações do officio esem amor. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vezdizia pilherias.VIID. Gloria.Minha mãe era boa creatura. Quando lhe morreu o marido, Pedro deAlbuquerque Santiago, contava trinta e um annos de edade, e podiavoltar para Itaguahy. Não quiz; preferiu ficar perto da egreja em quemeu pae fòra sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comproualguns que pôz ao ganho ou alugou, uma duzia de predios, certo numerode apolices, e deixou-se estar na casa de Matacavallos, onde viveraos dous ultimos annos de casada. Era filha de uma senhora mineira,descendente de outra paulista, a familia Fernandes.Ora, pois, naquelle anno da graça de 1857, D. Maria da Gloria FernandesSantiago contava quarenta e dous annos de edade. Era ainda bonita emoça, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que anatureza quizesse preserval-a da acção do tempo. Vivia mettida em umeterno vestido escuro, sem adornos, com um chale preto, dobrado emtriangulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabellos, em bandós,eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma veztrazia touca branca de fólhos. Lidava assim, com os seus sapatos decordavão rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e guiando os serviçostodos da casa inteira, desde manhã até á noite.Tenho alli na parede o retrato della, ao lado do do marido, taesquaes na outra casa. A pintura escureceu muito, mas ainda dá ideia deambos. Não me lembra nada delle, a não ser vagamente que era alto eusava cabelleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que meacompanham para todos os lados, effeito da pintura que me assombrava empequeno. O pescoço sae de uma gravata preta de muitas voltas, a caraé toda rapada, salvo um trechosinho pegado ás orelhas. O de minha mãemostra que era linda. Contava então vinte annos, e tinha uma flôr entreos dedos. No painel parece offerecer a flôr ao marido. O que se lè nacara do ambos é que, se a felicidade conjugal póde ser comparada ásorte grande, elles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as accusouainda de immoraes, como ninguem tachou de má a boceta de Pandora, porlhe ter tirado a esperança no fundo; em alguma parte ha de ella ficar.Aqui os tenho aos dous bem casados de outr'ora, os bem-amados, osbem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar umsonho provavelmente. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, ergo osolhos para elles, e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatidica.São retratos que valem por originaes. O de minha mãe, estendendo a flôrao marido, parece dizer: «Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!» O de meupae, olhando para a gente, faz este commentario: «Vejam como esta moçame quer...» Se padeceram molestias, não sei, como não sei se tiveramdesgostos: era creança e comecei por não ser nascido. Depois da mortedelle, lembra-me que ella chorou muito; mas aqui estão os retratos deambos, sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão.São como photographias instantaneas da felicidade.VIIIÉ tempo!Mas é tempo de tomar áquella tarde de Novembro, uma tarde clara efresca, socegada como a nossa casa e o trecho da rua em que moravamos.Verdadeiramente foi o principio da minha vida; tudo o que succederaantes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar emscena, o accender das luzes, o preparo das rabecas, a symphonia...Agora é que eu ia começar a minha opera. «A vida é uma opera,» dizia-meum velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um diaa definição, em tal maneira que me fez crer nella. Talvez valha a penadal-a; é só um capitulo.IXA opera.Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. «O desuso é queme faz mal», accrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava daEuropa, ia ao empresario e expunha-lhe todas as injustiças da terra edo ceu; o empresario commettia mais uma, e elle saía a bradar contraa iniquidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papeis. Quando andava,apezar de velho, parecia cortejar uma princeza de Babylonia. Ás vezes,cantarolava, sem abrir a bocca, algum trecho ainda mais edoso que elleou tanto; vozes assim abafadas são sempre possiveis. Vinha aqui jantarcommigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-mea definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podiasor uma opera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça ereplicou:--A vida é uma opera e uma grande opera. O tenor e o barytono lutampelo soprano, em presença do baixo e dos comprimarios, quando não são osoprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixoe dos mesmos comprimarios. Ha córos numerosos, muitos bailados, e aorchestração é excellente...--Mas, meu caro Marcolini...--Quê...?E, depois de beber um gole de licor, pousou o calix, e expoz-me ahistoria da creação, com palavras que vou resumir.Deus é o poeta. A musica é de Satanaz, joven maestro de muito futuro,que apprendeu no conservatorio do ceu. Rival de Miguel, Raphael eGabriel, não tolerava a precedencia que elles tinham na distribuiçãodos premios. Póde ser tambem que a musica em demasia doce e mysticadaquelles outros condiscipulos fosse aborrecivel ao seu genioessencialmente tragico. Tramou uma rebellião que foi descoberta atempo, e elle expulso do conservatorio. Tudo se teria passado sem maisnada, se Deus não houvesse escripto um libretto de opera, do qualabrira mão, por entender que tal genero de recreio era improprio dasua eternidade. Satanaz levou o manuscripto comsigo para o inferno.Com o fim de mostrar que valia mais que os outros,--e acaso parareconciliar-se com o ceu--compoz a partitura, e logo que a acabou foileval-a ao Padre Eterno.--Senhor, não desapprendi as licções recebidas, disse-lhe. Aqui tendesa partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardesdigna das alturas, admitti-me com ella a vossos pés...--Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.--Mas, Senhor...--Nada! nada!Satanaz supplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cançado echeio de misericordia, consentiu em que a opera fosse executada, masfóra do ceu. Creou um theatro especial, este planeta, e inventou umacompanhia inteira, com todas as partes, primarias e comprimarias, córose bailarinos.--Ouvi agora alguns ensaios!--Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libretto;estou prompto a dividir comtigo os direitos de autor.Foi talvez um mal esta recusa; della resultaram alguns desconcertosque a audiencia prévia e a collaboração amiga teriam evitado. Comeffeito, ha logares em que o verso vae para a direita e a musica paraa esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a belleza dacomposição, fugindo á monotonia, e assim explicam o tercetto do Eden,a aria de Abel, os córos da guilhotina e da escravidão. Não é raro queos mesmos lances se reproduzam, sem razao sufficiente. Certos motivoscançam á força de repetição. Tambem ha obscuridades; o maestro abusadas massas choraes, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso.As partes orchestraes são aliás tratadas com grande pericia. Tal é aopinião dos imparciaes.Os amigos do maestro querem que difficilmente se possa achar obratão bem acabada. Um ou outro admitte certas rudezas e taes ouquaes lacunas, mas com o andar da opera é provavel que estas sejampreenchidas ou explicadas, e aquellas desapparecam inteiramente, não senegando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todoao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste.Juram que o libretto foi sacrificado, que a partitura corrompeu osentido da lettra, e, posto seja bonita em alguns logares, e trabalhadacom arte em outros, é absolutamente diversa e até contraria ao drama. Ogrotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescenciapara imitar as _Mulheres patuscas de Windsor._ Este ponto é contestadopelos satanistas com alguma apparencia de razão. Dizem elles que, aotempo em que o joven Satanaz compoz a grande opera, nem essa farça nemShakespeare eram nascidos. Chegam a affirmar que o poeta inglez nãoteve outro genio senão transcrever a lettra da opera, com tal artee fidelidade, que parece elle proprio o autor da composição; mas,evidentemente, é um plagiario.--Esta peça, concluiu o velho tenor, durará emquanto durar o theatro,não se podendo calcular em que tempo será elle demolido por utilidadeastronomica. O exito é crescente. Poeta e musico recebem pontualmenteos seus direitos autoraes, que não são os mesmos, porque a regra dadivisão é aquillo da Escriptura: «Muitos são os chamados, poucos osescolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanaz em papel.--Tem graça...--Graça? bradou elle com furia; mas aquietou-se logo, e replicou: CaroSantiago, eu não tenho graça, eu tenho horror á graça. Isto que digo éa verdade pura e ultima. Um dia, quando todos os livros forem queimadospor inuteis, ha de haver alguem, póde ser que tenor, e talvez italiano,que ensine esta verdade aos homens. Tudo é musica, meu amigo. Noprincipio era o _dó_, e o _dó_ fez-se _ré_, etc. Este calix (e enchia-onovamente) este calix é um breve estribilho. Não se ouve? Tambem não seouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma opera...XAcceito a theoria.Que é demasiada metaphysica para um só tenor, não ha duvida; mas aperda da voz explica tudo, e ha philosophos que são, em resumo, tenoresdesempregados.Eu, leitor amigo, acceito a theoria do meu velho Marcolini, não só pelaverosimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vidase casa bem á definição. Cantei um _duo_ ternissimo, depois um _trio_,depois um _quatuor..._ Mas não adeantemos; vamos á primeira tarde, emque eu vim a saber que já cantava, porque a denuncia de José Dias,meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que elle medenunciou.XIA promessa.Tão depressa vi desapparecer o aggregado no corredor, deixei oesconderijo, e corri á varanda do fundo. Não quiz saber de lagrimas nemda causa que as fazia verter a minha mãe. A causa eram provavelmente osseus projectos ecclesiasticos, e a occasião destes é a que vou dizer,por ser já então historia velha; datava de dezeseis annos.Os projectos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascidomorto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundovingasse, promettendo, se fosse varão, mettel-o na egreja. Talvezesperasse uma menina. Não disse nada a meu pae, nem antes, nem depoisde me dar á luz; contava fazel-o quando eu entrasse para a escola,mas enviuvou antes disso. Viuva, sentiu terror de separar-se de mim;mas era tão devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas daobrigação, confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente,para que nos separassemos o mais tarde possivel, fez-me apprender emcasa primeiras lettras, latim e doutrina, por aquelle padre Cabral,velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar ás noites.Prazos largos são faceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos.Minha mãe esperou que os annos viessem vindo. Entretanto, ia-meaffeiçoando á ideia da egreja; brincos de creança, livros devotos,imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia para o altar.Quando iamos á missa, dizia-me sempre que era para apprender a serpadre, e que reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Emcasa, brincava de missa,--um tanto ás escondidas, porque minha mãedizia que missa não era cousa de brincadeira. Arranjavamos um altar,Capitú e eu. Ella servia de sacristão, e alteravamos o ritual, nosentido do dividirmos a hostia entre nós; a hostia era sempre umdoce. No tempo em que brincavamos assim, era muito commum ouvir áminha visinha: «Hoje ha missa?» Eu já sabia o que isto queria dizer,respondia affirmativamente, e ia pedir hostia por outro nome. Voltavacom ella, arranjavamos o altar, engrolavamos o latim e precipitavamosas cerimonias. _Dominus, non sum dignus..._ Isto, que eu devia dizertres vezes, penso que só dizia uma, tal era a golodice do padre e dosacristão. Não bebiamos vinho nem agua; não tinhamos o primeiro, e asegunda viria tirar-nos o gosto do sacrificio.Ultimamente não me falavam já do seminario, a tal ponto que eu suppunhaser negocio findo. Quinze annos, não havendo vocação, pediam antes oseminario do mundo que o de S. José. Minha mãe ficava muita vez a olharpara mim, como alma perdida, ou pegava-me na mão, a pretexto de nada,para apertal-a muito.XIINa varanda.Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coraçãoparecendo querer sair-me pela bocca fóra. Não me atrevia a descer áchacara, e passar ao quintal visinho. Comecei a andar de um lado paraoutro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozesconfusas repetiam o discurso do José Dias:«Sempre juntos...»«Em segredinhos...»«Se elles pegam de namoro...»Tijolos que pisei e repisei naquella tarde, columnas amarelladas queme passastes á direita ou á esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vósme ficou a melhor parte da crise, a sensação de um goso novo, que meenvolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, eme derramava não sei que balsamo interior. Ás vezes dava por mim,sorrindo, um ar do riso de satisfação, que desmentia a abominação domeu peccado. E as vozes repetiam-se confusas:«Em segredinhos...»«Sempre juntos...»«Se elles pegam de namoro...»Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou decima de si que não era feio que os meninos de quinze annos andassemnos cantos com as meninas de quatorze; ao contrario, os adolescentesdaquella edade não tinham outro officio, nem os cantos outra utilidade.Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda quenos velhos livros. Passaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava oestio, toda a gente viva do ar era da mesma opinião.Com que então eu amava Capitú, e Capitú a mim? Realmente, andava cosidoás saias della, mas não me occorria nada entre nós que fosse devérassecreto. Antes della ir para o collegio, eram tudo travessuras decreanca; depois que saiu do collegio, é certo que não restabelecemoslogo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no ultimoanno era completa. Entretanto, a materia das nossas conversações eraa de sempre. Capitú chamava-me ás vezes bonito, mocetão, uma flòr;outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordaresses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ellame passava a mão pelos cabellos, dizendo que os achava lindissimos.Eu, sem fazer o mesmo aos della, dizia que os della eram muito maislindos que os meus. Então Capitú abanava a cabeça com uma grandeexpressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto quetinha os cabellos realmente admiraveis; mas eu retorquia chamando-lhemaluca. Quando me perguntava se sonhára com ella na vespera, e eudizia que não, ouvia-lhe contar que sonhára commigo, e eram aventurasextraordinarias, que subiamos ao Corcovado pelo ar, que dansavamos nalua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, afim deos dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhosandavamos unidinhos. Os que eu tinha com ella não eram assim, apenasreproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simplesrepetição do dia, alguma phrase, algum gesto. Tambem eu os contava.Capitú um dia notou a differença, dizendo que os della eram maisbonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eramcomo a pessoa que sonhava... Fez-se còr de pitanga.Pois, francamente, só agora entendia a emoção que me davam essas eoutras confidencias. A emoção era doce e nova, mas a causa dellafugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os silencios dosultimos dias, que me não descobriam nada, agora os sentia como signaesde alguma cousa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, asrespostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a infancia. Tambemadverti que era phenomeno recente accordar com o pensamento em Capitú,e escutal-a de memoria, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Sese falava nella, em minha casa, prestava mais altenção que d'antes,e, segundo era louvor ou critica, assim me trazia gosto ou desgostomais intensos que outr'ora, quando eramos sómente companheiros detravessuras. Cheguei a pensar nella durante as missas daquelle mez, comintervallos, é verdade, mas com exclusivismo tambem.Tudo isto me era agora apresentado pela bocca de José Dias, que medenunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera,o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e do outro. Naquelleinstante, a eterna Verdade não valeria mais que elle, nem a eternaBondade, nem as demais Virtudes eternas. Em amava Capitú! Capitúamava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, tremulase crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essarevelação da consciencia a si propria, nunca mais me esqueceu, nemachei que lhe fosse comparavel qualquer outra sensação da mesmaespecie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente tambem por ser aprimeira.XIIICapitú.De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé:--Capitú!E no quintal:--Mamãe!E outra vez na casa:--Vem cá!Não me pude ter. As pernas desceram-me os tres degraus que davam paraa chacara, e caminharam para o quintal visinho. Era costume dellas, ástardes, e ás manhãs tambem. Que as pernas tambem são pessoas, apenasinteriores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não asrege por meio de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia alliuma porta de communicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitúe eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela, abria-seempurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso deuma pedra pendente de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa.Em creancas, faziamos visita batendo de um lado, e sendo recebidosdo outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitú adoeciam,o medico era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo dobraço, para imitar o bengalão do doutor João da Costa; tomava o pulsoá doente, e pedia-lhe que mostrasse a lingua. «É surda, coitada!»exclamava Capitú. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabavamandando applicar-lhe umas sanguesugas ou dar-lhe um vomitorio: era atherapeutica habitual do medico.--Capitú!--Mamãe!--Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já da porta dosfundos. Quiz passar ao quintal, mas as pernas, ha pouco tão andarilhas,pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta,e entrei. Capitú estava ao pé do muro fronteiro, voltada para elle,riscando com um prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao darcommigo, encostou-se ao muro, como se quizesse esconder alguma cousa.Caminhei para ella; naturalmente levava o gesto mudado, porque ellaveiu a mim, e perguntou-me inquieta:--Que é que você tem?--Eu? Nada.--Nada, não; você tem alguma cousa.Quiz insistir que nada, mas não achei lingua. Todo eu era olhos ecoração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boccafora. Não podia tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos,alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado.Os cabellos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma áoutra, á moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos clarose grandes, nariz recto e comprido, tinha a bocca fina e o queixo largo.As mãos, a despeito de alguns officios rudes, eram curadas com amor;não cheiravam a sabões finos nem aguas de toucador, mas com agua dopoço e sabão commum trazia-as sem macula. Calçava sapatos de duraque,rasos e velhos, a que ella mesma dera alguns pontos.--Que é que você tem? repetiu.--Não é nada, balbuciei finalmente.E emendei logo:--É uma noticia.--Noticia de què?Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminario e espreitar aimpressão que lhe faria. Se a consternasse é que realmente gostava demim; se não, é que não gostava. Mas todo esse calculo foi obscuro erapido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista nãosei como...--Então?--Você sabe...Nisto olhei para o muro, o logar em que ella estivera riscando,escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, elembrou-me o gesto que ella fizera para cobril-os. Então quiz vel-osde perto, e dei um passo. Capitú agarrou-me, mas, ou por temer queeu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adeante eapagou o escripto. Foi o mesmo que accender em mim o desejo de ler oque era.XIVA inscripção.Tudo o que contei no fim do outro capitulo foi obra de um instante.O que se lhe seguiu foi ainda mais rapido. Dei um pulo, e antes queella raspasse o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, o assimdispostos:BENTO CAPITOLINAVoltei-me para ella; Capitú tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo,devagar, e ficámos a olhar um para o outro... Confissão de creanças,tu valias bem duas ou tres paginas, mas quero ser poupado. Em verdade,não falámos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é quese estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se,fundindo-se. Não marquei a hora exacta daquelle gesto. Devia tel-amarcado; sinto a falta de uma nota escripta naquella mesma noite, eque eu poria aqui com os erros de orthographia que trouxesse, mas nãotraria nenhum, tal era a differença entre o estudante e o adolescente.Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgiasde latim e era virgem de mulheres.Não soltámos as mãos, nem ellas se deixaram cair de cançadas ou deesquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem aoperto, tornavam a metter-se uns pelos outros... Padre futuro, estavaassim deante della como de um altar, sendo uma das faces a Epistola ea outra o Evangelho. A bocca podia ser o calix, os labios a patena.Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguem apprende, e é alingua catholica dos homens. Não me tenhas por sacrilego, leitora minhadevota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial noestylo. Estavamos alli com o ceu em nós. As mãos, unindo os nervos,faziam das duas creaturas uma só, mas uma só creatura seraphica. Osolhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de bocca é quenem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham...XVOutra voz repentina.Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:--Vocês estão jogando o siso?Era o pae de Capitú, que estava á porta dos fundos, ao pé da mulher.Soltámos as mãos depressa, e ficámos atrapalhados. Capitú foi ao muro,e, com o prego, disfarçadamente, apagou os nossos nomes escriptos.--Capitú!--Papae!--Não me estragues o reboco do muro.Capitú riscava sobre o riscado, para apagar bem o escripto. Padua saiuao quintal, a ver o que era, mas já a filha tinha começado outra cousa,um perfil, que disse ser o retrato delle, e tanto podia ser delle comoda mãe; fel-o rir, era o essencial. De resto, elle chegou sem colera,todo meigo, apezar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que nosapanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, costasabahuladas, donde lhe veiu a alcunha de Tartaruga, que José Dias lhepoz. Ninguem lhe chamava assim lá em casa; era só o aggregado.--Vocês estavam jogando o siso? perguntou,Olhei para um pé do sabugueiro que ficava perto; Capitú respondeu porambos.--Estavamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, não aguenta.--Quando eu cheguei á porta, não ria.--Já tinha rido das outras vezes; não póde. Papae quer ver?E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo. O susto énaturalmente serio; eu estava ainda sob a acção do que trouxe a entradade Padua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse fazel-o, paralegitimar a resposta de Capitú. Esta, cançada de esperar, desviouo rosto, dizendo que eu não ria daquella vez por estar ao pé dopae. E nem assim ri. Ha cousas que só se apprendem tarde; é misternascer com ellas para fazel-as cedo. E melhor é naturalmente cedo queartificialmente tarde. Capitú, após duas voltas, foi ter com a mãe,que continuava á porta da casa, deixando-nos a mim e ao pae encantadosdella; o pae, olhando para ella e para mim, dizia-me, cheio de ternura:--Quem dirá que esta pequena tem quatorze annos? Parece dezesete. Mamãeestá boa? continuou voltando-se inteiramente para mim.--Está.--Ha muitos dias que não a vejo. Estou com vontade de dar um capoteao doutor, mas não tenho podido, ando com trabalhos da repartição, emcasa; escrevo todos os noites que é em desespero; negocio de relatorio.Você já viu o meu gaturamo? Está alli no fundo. Ia agora mesmo buscar agaiola; ande ver.Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, sem ser preciso jurarpelo ceu nem pela terra. Meu desejo era ir atraz de Capitú e falar-lheagora do mal que nos esperava, mas o pae era o pae, e demais amavaparticularmente os passarinhos. Tinha-os de varia especie, côr etamanho. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas decanarios, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocavapassaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no proprioquintal, armando alçapões. Tambem, se adoeciam, tratava delles como sefossem gente.XVIO administrador interino.Padua era empregado em repartição dependente do ministerio da guerra.Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata.Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto quemenor, era propriedade delle. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiun'um meio bilhete de loteria, dez contos de reis. A primeira ideia doPadua, quando lhe saiu o premio, foi comprar um cavallo do Cabo, umadereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpetua de familia,mandar vir da Europa alguns passaros, etc.; mas a mulher, esta D.Fortunata que alli está á porta dos fundos da casa, em pé, falando áfilha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça, os mesmosolhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa,e guardar o que sobrasse para acudir ás molestias grandes. Paduahesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quemD. Fortunata pediu auxilio. Nem foi só nessa occasião que minha mãelhes valeu; um dia chegou a salvar a vida ao Padua. Escutai; a anecdotaé curta.O administrador da repartição em que Padua trabalhava teve de ir aoNorte, em commissão. Padua, ou por ordem regulamentar, ou por especialdesignação, ficou substituindo o administrador com os respectivoshonorarios. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem: eraantes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa,atirou-se ás despezas superfluas, deu joias á mulher, nos dias defesta matava um leitão, era visto em theatros, chegou aos sapatos deverniz. Viveu assim vinte e dous mezes na supposição de uma eternainterinidade. Uma tarde entrou em nossa casa, afflicto e desvairado,ia perder o logar, porque chegara o effectivo naquella manhã. Pediu aminha mãe que velasse pelas infelizes que deixava; não podia soffrera desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe com bondade, mas elle nãoattendia a cousa nenhuma.--Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descera familia, tornar atraz... Já disse, mato-me! Não hei de confessar áminha gente esta miseria. E os outros? Que dirão os visinhos? E osamigos? E o publico?--Que publico, Sr. Padua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre-se que suamulher não tem outra pessoa... e que ha de fazer? Pois um homem...Seja homem, ande.Padua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado algunsdias, mudo, fechado na alcova,--ou então no quintal, ao pé do poço,como se a ideia da morte teimasse nelle. D. Fortunata ralhava:--Joãosinho, você é creança?Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correua pedir a minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava omarido que se queria matar. Minha mãe foi achal-o á beira do poço, eintimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquella de parecer que iaficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder umemprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pae de familia, imitara mulher e a filha... Padua obedeceu; confessou que acharia forças paracumprir a vontade de minha mãe.--Vontade minha, não; é obrigação sua.--Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido á parede,cara no chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéo em cortejara visinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administraçãointerina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando. Padua começou ainteressar-se pelos negocios domesticos, a cuidar dos passarinhos, adormir tranquillo as noites e as tardes, a conversar e dar noticias darua. A serenidade regressou; atraz della veiu a alegria, um domingo,na figura de dous amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já elle ria,já brincava, tinha o ar do costume; a ferida sarou de todo.Com o tempo veiu um phenomeno interessante. Padua começou a falar daadministração interina, não sómente sem as saudades dos honorarios,nem o vexame da perda, mas até com desvanecimento e orgulho. Aadministração ficou sendo a hegyra, donde elle contava para deante epara traz.--No tempo em que eu era administrador...Ou então:--Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administração, um ou dousmezes antes... Ora espere; a minha administração começou... É isto, meze meio antes; foi mez e meio antes, não foi mais.Ou ainda:--Justamente; havia já seis mezes que eu administrava...Tal é o sabor posthumo das glorias interinas. José Dias bradava queera a vaidade sobrevivente; mas o padre Cabral, que levava tudo para aEscriptura, dizia que com o visinho Padua se dava a licção de Eliphaz aJob: «Não desprezes a correcção do Senhor; elle fere e cura.»XVIIOs vermes.«Elle fere e cura!» Quando, mais tarde, vim a saber que a lançade Achilles tambem curou uma ferida que fez, tive taes ou quaesvelleidades de escrever uma dissertação a este proposito. Cheguei apegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abril-os, acomparal-os, calando o texto e o sentido, para achar a origem commum dooraculo pagão e do pensamento israelita. Catei os proprios vermes doslivros, para que me dissessem o que havia nos textos roidos por elles.--Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, uns não sabemosabsolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos,nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessempassado palavra, repeliam a mesma cantilena. Talvez esse discretosilencio sobre os textos roidos, fosse ainda um modo de roer o roido.XVIIIUm plano.Pae nem mãe foram ter comnosco, quando Capitú e eu, na sala de visitas,falavamos do seminario. Com os olhos em mim, Capitú queria saber quenoticia era a que me affligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-secôr de cêra.--Mas eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminarios; nãoentro, é excusado teimarem commigo, não entro.Capitú, a principio não disse nada. Recolheu os olhos, metteu-osem si e deixou-se estar com as pupillas vagas e surtias, a boccaentre-aberta, toda parada. Então eu, para dar forca ás affirmações,comecei a jurar que não seria padre. Naquelle tempo jurava muito erijo, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz mefaltasse na hora da morte se fosse para o seminario. Capitú não pareciacrer nem descrer, não parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quizchamal-a, sacudil-a, mas faltou-me animo. Essa creatura que brincáracommigo, que pulára, dansára, creio até que dormira commigo, deixava-meagora com os braços atados e medrosos. Emfim, tornou a si, mas tinha acara livida, e rompeu nestas palavras furiosas:--Beata! carola! papa-missas!Fiquei aturdido. Capitú gostava tanto de minha mãe, e minha mãe della,que eu não podia entender tamanha explosão. É verdade que tambemgostava de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira,cousa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça daseparação; mas os improperios, como entender que lhe chamasse nomes tãofeios, e principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram osseus? Que ella tambem ia á missa, e tres ou quatro vezes minha mãe éque a levou, na nossa velha sege. Tambem lhe dera um rosario, uma cruzde ouro e um livro de _Horas..._ Quiz defendel-a, mas Capitú não medeixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tivemedo fosse ouvida dos paes. Nunca a vi tão irritada como então; pareciadisposta a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça...Eu, assustado, não sabia que fizesse; repetia os juramentos, promettiair naquella mesma noite declarar em casa que, por nada neste mundo,entraria no seminario.--Você? Você entra.--Não entro.--Você verá se entra ou não.Calou-se outra vez. Quando tornou a falar, tinha mudado; não era aindaa Capitú do costume, mas quasi. Estava seria, sem afflicção, falavabaixo. Quiz saber a conversação da minha casa; eu contei-lh'a toda,menos a parte que lhe dizia respeito.--E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim.--Acho que nenhum; foi só para fazer mal. É um sujeito muito ruim; mas,deixe estar que me ha de pagar. Quando eu fôr dono da casa, quem vaepara a rua é elle, você verá; não me fica um instante. Mamãe é boa demais; dá-lhe attenção de mais. Parece até que chorou.--José Dias?--Não, mamãe.--Chorou porque?--Não sei; ouvi só dizer que ella não chorasse, que não era cousa dechoro... Elle chegou a mostrar-se arrependido, e saiu; eu então, paranão ser apanhado, deixei o canto e corri para a varanda. Mas, deixeestar, que elle me paga!Disse isto fechando o punho, e proferi outras ameaças. Ao relembral-as,não me acho ridiculo; a adolescencia e a infancia não são, neste ponto,ridiculas; e um dos seus privilegios. Este mal ou este perigo começana mocidade, cresce na madurera e attinge o maior grão na velhice. Aosquinze annos, ha até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.Capitú reflectia. A reflexão não era cousa rara nella, e conheciam-seas occasiões pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circumstanciasmais, as proprias palavras de uns e de outros, e o tom dellas. Como eunão queria dizer o ponto inicial da conversa, que era ella mesma, nãolhe pude dar toda a significação. A attenção de Capitú estava agoraparticularmente nas lagrimas de minha mãe; não acabava de entendel-as.Em meio disto, confessou que certamente não era por mal que minha mãeme queria fazer padre; era a promessa antiga, que ella, temente a Deus,não podia deixar de cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assimespontaneamente reparava as injurias que lhe sairam do peito, poucoantes, que peguei da mão della e apertei-a muito. Capitú deixou-se ir,rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Tinhamos chegadoá janella; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas,parou em frente e perguntou:--Sinhásinha, qué cocada hoje?--Não, respondeu Capitú.--Cocadinha tá boa.--Vá-se embora, replicou ella sem rispidez.--Dê ca! disse eu descendo o braço para receber duas.Comprei-as, mas tive de as comer sósinho; Capitú recusou. Vi que, emmeio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto pódeser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para definiçõestaes; fiquemos em que a minha amiga, apezar de equilibrada e lucida,não quiz saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrario, opregão que o preto foi cantando, o prégão das velhas tardes, tão sabidodo bairro e da nossa infancia:Chora, menina, chora,Chora, porque não temVintem,a modo que lhe deixára uma impressão aborrecida, Da toada não era;ella a sabia de cór e de longe, usava repetil-a nos nossos jogos dapuericia, rindo, saltando, trocando os papeis commigo, ora vendendo,ora comprando um doce ausente. Creio que a lettra, destinada a picara vaidade das crianças, foi que a enojou agora, porque logo depois medisse:--Se eu fosse rica, você fugia, mettia-se no paquete e ia para a Europa.Dito isto, espreitou-me os olhos, mas creio que elles não lhe disseramnada, ou só agradeceram a boa intenção. Com effeito, o sentimento eratão amigo que eu podia excusar o extraordinario da aventura.Como vês, Capitú, aos quatorze annos, tinha já ideias atrevidas,muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidasem si, na pratica faziam-se habeis, sinuosas, surdas, e alcançavam ofim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. não sei se me explicobem. Supponde uma concepção grande executada por meios pequenos.Assim, para não sair do desejo vago e hypothetico de me mandar paraa Europa, Capitú, se pudesse cumpril-o, não me faria embarcar nopaquete e fugir; estenderia uma fila de canoas daqui até lá, poronde eu, parecendo ir á fortaleza da Lage em ponte movediça, iriarealmente até Bordéos, deixando minha mãe na praia, á espera. Tal eraa feição particular do caracter da minha amiga; pelo que, não admiraque, combatendo os meus projectos de resistencia franca, fosse antespelos meios brandos, pela acção do empenho, da palavra, da persuasãolenta e diuturna, e examinasse antes as pessoas com quem podiamoscontar. Rejeitou tio Cosme; era um «boa-vida»; se não approvava aminha ordenação, não era capaz de dar um passo para suspendel-a. PrimaJustina era melhor que elle, e melhor que os dous seria o padre Cabral,pela autoridade, mas o padre não havia de trabalhar contra a egreja; sóse eu lhe confessasse que não tinha vocação....--Posso confessar?--Pois, sim, mas seria apparecer francamente, e o melhor é outra cousa.José Dias....--Que tem José Dias?--Póde ser um bom empenho.--Mas se foi elle mesmo que falou....--Não importa, continuou Capitú; dirá agora outra cousa. Elle gostamuito de você. Não lhe fale acanhado. Tudo é que você não tenha medo,mostre que ha de vir a ser dono da casa, mostre que quer e que póde.Dê-lhe bem a entender que não é favor. Faça-lhe tambem elogios; ellegosta muito de ser elogiado. D. Gloria presta-lhe attenção; mas oprincipal não é isso; é que elle, tendo de servir a você, falará commuito mais calor que outra pessoa.--Não acho. não, Capitú.--Então vá para o seminario.--Isso não.--Mas que se perde em experimentar? Experimentemos; faça o que lhedigo. D. Gloria póde ser que mude de resolução; se não mudar, faz-seoutra cousa, mette-se então o padre Cabral. Você não se lembra comoé que foi ao theatro pela primeira vez, ha dous mezes? D. Gloria nãoqueria, e bastava isso para que José Dias não teimasse; mas elle queriair, e fez um discurso, lembra-se?--Lembra-me; disse que o theatro era uma escola de costumes.--Justo; tanto falou que sua mãe acabou consentindo, e pagou a entradaaos dous.... Ande, peça, mande. Olhe; diga-lhe que está prompto a irestudar leis em S. Paulo.Estremeci de prazer. S. Paulo era um fragil biombo, destinado a serarredado um dia, em vez da grossa parede espiritual e eterna. Promettifalar a José Dias nos termos propostos. Capitú repetiu-os, accentuandoalguns, como principaes; e inquiria-me depois sobre elles, a ver seentendera bem, se não trocara uns por outros. E insistia em que pedissecom boa cara, mas assim como quem pede um copo de agua a pessoa quetem obrigação de o trazer. Conto estas minucias para que melhor seentenda aquella manhã da minha amiga; logo virá a tarde, e da manhãe da tarde se fará o primeiro dia, como no Genesis, onde se fizeramsuccessivamente sete.XIXSem falta.Quando voltei a casa era noite. Vim depressa, não tanto, porém, que nãopensasse nos termos em que falaria ao aggregado. Formulei o pedido decabeça, escolhendo as palavras que diria e o tom dellas, entre seccoe benevolo. Na chacara, antes de entrar em casa, repeti-as commigo,depois em voz alia, para ver se eram adequadas e se obedeciam ásrecommendações de Capitú: «Preciso falar-lhe, _sem falta_, amanhã;escolha o logar e diga-me.» Proferi-as lentamente, e mais lentamenteainda as palavras _sem falta_, como para sublinhal-as. Repeti-as ainda,e então achei-as seccas de mais, quasi rispidas, e, francamente,improprias de um creançola para um homem maduro. Cuidei de escolheroutras, e parei.Afinal disse commigo que as palavras podiam servir, tudo era dizel-asem tom que não offendesse. E a prova é que, repetindo-as novamente,saíram-me quasi supplices. Bastava não carregar tanto, nem adoçarmuito, um meio termo. «E Capitú tem razão, pensei, a casa é minha, elleé um simples aggregado... Geitoso é, póde muito bem trabalhar por mim,e desfazer o plano de mamãe.»XXMil padre-nossos e mil ave-marias.Levantei os olhos ao ceu, que começava a embruscar-se, mas não foi paravel-o coberto ou descoberto. Era ao outro ceu que eu erguia a minhaalma; era ao meu refugio, ao meu amigo. E então disse de mim para mim:--Prometto rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Diasarranjar que eu não vá para o seminario.A somma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessasnão cumpridas. A ultima foi de duzentos padre-nossos e duzentasave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Theresa.Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino acostumara-mea pedir ao ceu os seus favores, mediante orações que diria, se ellesviessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e á medida quese amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos numeros vinte,trinta, cincoenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modode peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cadapromessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a divida antiga.Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não asentia attenuada pela vida! O ceu fazia-me o favor, eu adiava a paga.Afinal perdi-me nas contas.--Mil, mil, repeti commigo.Realmente, a materia do beneficio era agora immensa, não menos que asalvação ou o naufragio da minha existencia inteira. Mil, mil, mil.Era preciso uma somma que pagasse os atrazados todos. Deus podiamuito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me semmuito dinheiro.... Homem grave, é possivel que estas agitações demenino te enfadem, se é que não as achas ridiculas. Sublimes não eram.Cogitei muito no modo de resgatar a divida espiritual. Não achavaoutra especie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechandoa escripturação da minha consciencia moral sem _deficit._ Mandardizer cem missas, ou subir do joelhos a ladeira da Gloria para ouviruma, ir á Terra-Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam depromessas celebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espirito.Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feril-os por força.A Terra-Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiamempenhar-mo outra vez a alma....XXIPrima Justina.Na varanda achei prima Justina, passeando de um lado para outro. Veiuao patamar e perguntou-me onde estivera.--Estive aqui ao pé, conversando com D. Fortunata, e distraí-me. Étarde, não é? Mamãe perguntou por mim?--Perguntou, mas eu disse que você já tinha vindo.A mentira espantou-me, não menos que a franqueza da noticia. Não é queprima Justina fosse de biocos; dizia francamente a Pedro o mal quepensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas, confessar quementira é que me pareceu novidade. Era quadragenaria, magra e pallida,bocca fina e olhos curiosos. Vivia comnosco por favor de minha mãe, etambem por interesse; minha mãe queria ter uma senhora intima ao pé desi, e antes parenta que extranha.Passeámos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampião. Quizsaber se eu não esquecera os projectos ecclesiasticos de minha mãe, edizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha á vidade padre. Respondi esquivo:--Vida de padre é muito bonita.--Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre,explicou rindo.--Eu gósto do que mamãe quizer.--Prima Gloria deseja muito que você se ordene, mas ainda que nãodesejasse, ha cá em casa quem lhe metta isso na cabeça.--Quem é?--Ora, quem! Quem é que hade ser? Primo Cosme não é, que não se importacom isso; eu tambem não.--José Dias? conclui.--Naturalmente.Enruguei a testa interrogativamente, como se não soubesse nada. PrimaJustina completou a noticia dizendo que ainda naquella tarde José Diaslembrára a minha mãe a promessa antiga.--Prima Gloria póde ser que, em passando os dias, vá esquecendo apromessa; mas como ha de esquecer se uma pessoa estiver sempre, nosouvidos, zás que darás, falando do seminario? E os discursos que ellefaz, os elogios da egreja, e que a vida de padre é isto e aquillo, tudocom aquellas palavras que só elle conhece, e aquella affectação...Note que é só para fazer mal, porque elle é tão religioso, como estelampião. Pois é verdade, ainda hoje. Você não se dê por achado... Hojede tarde falou como você não imagina.--Mas falou á toa? perguntei, a ver se ella contava a denuncia do meunamoro com a visinha.Não contou; fez apenas um gesto como indicando que havia outra cousaque não podia dizer. Novamente me recommendou que não me désse porachado, e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias, e não erapouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e, apezar da cascade polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, disse:--Prima Justina, a senhora era capaz de uma cousa?--De quê?--Era capaz de... Supponha que eu não gostasse de ser padre... asenhora podia pedir a mamãe...--Isso não, atalhou promptamente; prima Gloria tem este negocio firmena cabeça, e não ha nada no mundo que a faça mudar de resolução; sóo tempo. Você ainda era pequenino, já ella contava isto a todas aspessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. Lá avivar-lhe a memoria,não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas tambem,pedir outra cousa, não peço. Se ella me consultasse, bem; se ella medissesse: «Prima Justina, você que acha?» a minha resposta era: «PrimaGloria, eu penso que, se elle gosta de ser padre, póde ir; mas, se nãogosta, o melhor é ficar.» E o que eu diria e direi se ella me consultaralgum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, não faço.XXIISensações alheias.Não alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me do pedido: deviater seguido o conselho de Capitú. Então, como eu quizesse ir paradentro, prima Justina reteve-me alguns minutos, falando do calor e daproxima festa da Conceição, dos meus velhos oratorios, e finalmente deCapitú. Não disse mal della; ao contrario insinuou-me que podia vir aser uma moça bonita. Eu, que já a achava lindissima, bradaria que eraa mais bella creatura do mundo, se o receio me não fizesse discreto.Entretanto, como prima Justina se mettesse a elogiar-lhe os modos, agravidade, os costumes, o trabalhar para os seus, o amor que tinha aminha mãe, tudo isto me accendeu a ponto de elogial-a tambem. Quandonão era com palavras, era com o gesto de approvação que dava a cadauma das assersões da outra, e certamente com a felicidade que deviailluminar-me a cara. Não adverti que assim confirmava a denuncia deJosé Dias, ouvida por ella, á tarde, na sala de visitas, se é quetambem ella não desconfiava já. Só pensei nisso na cama. Só então sentique os olhos de prima Justina, quando eu falava, pareciam apalpar-me,ouvir-me, cheirar-me, gostar-me, fazer o officio de todos os sentidos.Ciumes não podiam ser; entre um pirralho da minha edade e uma viuvaquarentona não havia logar para ciumes. É certo que, após algumtempo, modificou os elogios a Capitú, e até lhe fez algumas criticas,disse-me que era um pouco trefega e olhava por baixo; mas ainda assim,não creio que fossem ciumes. Creio antes... sim... sim, creio isto.Creio que prima Justina achou no espectaculo das sensações alheias umaresurreição vaga das proprias. Tambem se goza por influição dos labiosque narram.XXIIIPrazo dado.--Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha o logar e diga-me.Creio que José Dias achou desusado este meu falar. O tom não me sairiatão imperativo como eu receiava, mas as palavras o eram, e o nãointerrogar, não pedir, não hesitar, como era proprio da creança e domeu estylo habitual, certamente lhe deu ideia de uma pessoa nova e deuma nova situação. Foi no corredor, quando iamos para o chá; José Diasvinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãee a prima Justina. Lia cantado e compassado. Os castellos e os parquessaíam maiores da bocca delle, os lagos tinham mais agua e a «abobadaceleste» contava alguns milhares mais de estrellas centelhantes. Nosdialogos, alternava o som das vozes, que eram levemente grossas oufinas, conforme o sexo dos interlocutores, e reproduziam com moderaçãoa ternura e a colera.Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me elle:--Amanhã, na rua. Tenho umas compras que fazer, você póde ir commigo,pedirei a mamãe. É dia de licção?--A licção foi hoje.--Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é; affirmo desde já que émateria grave e pura.--Sim, senhor.--Até amanhã.Fez-se tudo o melhor possivel. Houve só uma alteração: minha mãe achouo dia quente e não consentiu que eu fosse a pé; entrámos no omnibus, áporta de casa.--Não importa, disse-me José Dias; podemos apear-nos á porta do PasseioPublico.XXIVDe mãe e de servo.José Dias tratava-me com extremos de mãe e attenções de servo. Aprimeira cousa que conseguiu logo que comecei a andar fora, foidispensar-me o pagem; fez-se pagem, ia commigo á rua. Cuidava dos meusarranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha hygiene eda minha prosodia. Aos oito annos os meus pluraes careciam, alguma vez,da desinencia exacta, elle a corrigia, meio serio para dar autoridadeá licção, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assimo mestre de primeiras lettras. Mais tarde, quando o padre Cabral meensinava latim, doutrina e historia sagrada, elle assistia ás licções,fazia reflexões ecclesiasticas, e, no fim, perguntava ao padre: «Nãoé verdade que o nosso joven amigo caminha depressa?» Chamava-me «umprodigio»; dizia a minha mãe ter conhecido outr'ora meninos muitointelligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para aminha edade, possuia já certo numero de qualidades moraes solidas. Eu,posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio;era um elogio.XXVNo Passeio Publico.Entrámos no Passeio Publico. Algumas caras velhas, outras doentes ou sóvadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vae da porta aoterraço. Seguimos para o terraço. Andando, para me dar animo, falei dojardim:--Ha muito tempo que não venho aqui, talvez um anno.--Perdôe-me, atalhou elle, não ha tres mezes que esteve aqui com onosso visinho Padua; não se lembra?--É verdade, mas foi tão de passagem...--Elle pediu a sua mãe que o deixasse trazer comsigo, e ella, que é boacomo a mãe de Deus, consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não ébonito que você ande com o Padua na rua.--Mas eu andei algumas vezes...--Quando era mais joven; em creança, era natural, elle podia passar porcreado. Mas você está ficando moco, e elle vae tomando confiança. D.Gloria, afinal, não pode gostar disto. A gente Padua não é de todo má.Capitú, apesar daquelles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparounos olhos della? São assim de cigana obliqua e dissimulada. Pois,apesar delles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação.Oh! a adulação! D. Fortunata merece estima, e elle não nego que sejahonesto, tem um bom emprego, possue a casa em que móra, mas honestidadee estima não bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor comas más companhias em que elle anda. Padua tem uma tendencia para genteréles. Em lhe cheirando a homem chulo é com elle. Não digo isto porodio, nem por que elle fale mal de mim e se ria, como se riu, ha dias,dos meus sapatos acalcanhados...--Perdão, interrompi suspendendo o passo, nunca ouvi que falasse maldo senhor; pelo contrario, um dia, não ha muito tempo, disse elle a umsujeito, em minha presença, que o senhor era «um homem de capacidade esabia falar corno um deputado nas camaras.»José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço grande e fechououtra vez o rosto; depois replicou:--Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me tem feito o favorde juizos altos. E nada disso impede que elle seja o que lhe digo.Tinhamos outra vez andado, subimos ao terraço, e olhámos para o mar.--Vejo que o senhor não quer senão o meu beneficio, disse eu depois dealguns instantes.--Pois que outra cousa, Bentinho?--Neste caso, peço-lhe um favor.--Um favor? Mande, ordene, que é?--Mamãe...Durante algum tempo não pude dizer o resto, que era pouco, e vinha decór. José Dias tornou a perguntar o que era, sacudia-me com brandura,levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim, ancioso tambem, comoa prima Justina na vespera.--Mamãe quê? Que é que tem mamãe?--Mamãe quer que eu seja padre, mas eu não posso ser padre, dissefinalmente.José Dias endireitou-se pasmado.--Não posso, continuei eu, não menos pasmado que elle, não tenho geito,não gósto da vida de padre. Estou por tudo o que ella quizer; mamãesabe que eu faço tudo o que ella manda; estou prompto a ser o que fôrdo seu agrado, até cocheiro de omnibus. Padre, não; não posso serpadre. A carreira é bonita, mas não é para mim.Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente,peremptorio, como póde parecer do texto, mas aos pedaços, mastigado,em voz um pouco surda e timida. Não obstante, José Dias ouvira-oespantado. Não contava certamente com a resistencia, por mais acanhadaque fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão:--Conto com o senhor para salvar-me.Os olhos do aggregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se,e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da protecção não semostrou em nenhum dos musculos. Toda a cara delle era pouca para aestupefacção. Realmente, a materia do discurso revelára em mim uma almanova; eu proprio não me conhecia. Mas a palavra final é que trouxe umvigor unico. José Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram ásdimensões ordinarias:--Mas que posso eu fazer? perguntou.--Póde muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam. Mamãepede muita vez os seus conselhos, não é? Tio Cosme diz que o senhor épessoa de talento...--São bondades, retorquiu lisonjeado. São favores de pessoas dignas,que merecem tudo... Ahi está! nunca ninguem me ha de ouvir dizer nadade pessoas taes; porque? porque são illustres e virtuosas. Sua mãeé uma santa, seu tio é um cavalheiro perfeitissimo. Tenho conhecidofamilias distinctas; nenhuma poderá vencer a sua em nobreza desentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho,mas é só um,--é o talento de saber o que é bom e digno de admiração ede apreço.--Ha de ter tambem o de proteger os amigos, como eu.--Em que lhe posso valer, anjo do ceu? Não hei de dissuadir sua mãede um projecto que é, além de promessa, a ambição e o sonho de longosannos. Quando pudesse, é tarde. Ainda hontem fez-me o favor de dizer:«José Dias, preciso metter Bentinho no seminario.»Timidez não é tão ruim moeda, como parece. Se eu fosse destemido, éprovavel que, com a indignação que experimentei, rompesse a chamar-lhementiroso, mas então seria preciso confessar-lhe que estivera á escuta,atraz da porta, e uma acção valia outra. Contentei-me de responder quenão era tarde.--Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor quizer.--Se eu quizer? Mas que outra cousa quero eu, senão servil-o? Quedesejo, senão que seja feliz, como merece?--Pois ainda é tempo. Olhe, não é por vadiação. Estou prompto paratudo; se ella quizer que eu estude leis, vou para S. Paulo...XXVIAs leis são bellas.Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de umaideia,--uma ideia que o alegrou extraordinariamente. Calou-se algunsinstantes; eu tinha os olhos nelle, elle voltara os seus para o lado dabarra. Como insistisse:--É tarde, disse elle; mas, para lhe provar que não ha falta devontade, irei falar a sua mãe. Não prometto vencer, mas lutar;trabalharei com alma. Devéras, não quer ser padre? As leis são bellas,meu querido... Póde ir a S. Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais longe.Ha boas universidades por esse mundo fóra. Vá para as leis, se tal éa sua vocação. Vou falar a D. Gloria, mas não conte só commigo; faletambem a seu tio.--Hei de falar.--Pegue-se tambem com Deus,--com Deus e a Virgem Santissima, concluiuapontando para o ceu.O ceu estava meio enfarruscado. No ar, perto da praia, grandes passarosnegros faziam giros, avoaçando ou pairando, e desciam a roçar os pés,na agua, e tornavam a erguer-se para descer novamente. Mas nem assombras do ceu, nem as dansas fantasticas dos passaros me desviavamo espirito do meu interlocutor. Depois de lhe responder que sim,emendei-me:--Deus fará o que o senhor quizer.--Não blaspheme. Deus é dono de tudo; elle é, só por si, a terra eo ceu, o passado, o presente e o futuro. Peça-lhe a sua felicidade,que eu não faço outra cousa... Uma vez que você não póde ser padre, eprefere as leis... As leis são bellas, sem desfazer na theologia, queé melhor que tudo, como a vida ecclesiastica é a mais santa... Porquenão ha de ir estudar leis fóra daqui? Melhor é ir logo para algumauniversidade, e ao mesmo tempo que estuda, viaja. Podemos ir juntos;veremos as terras estranjeiras, ouviremos inglez, francez, italiano,hespanhol, russo e até sueco. D. Gloria provavelmente não poderáacompanhal-o; ainda que possa e vá, não quererá guiar os negocios,papeis, matriculas, e cuidar de hospedarias, e andar com você de umlado para outro... Oh! as leis são bellissimas!--Está dito, pede a mamãe que me não metia no seminario?--Pedir, peço, mas pedir não é alcançar. Anjo do meu coração, sevontade de servir é poder de mandar, estamos aqui, estamos a bordo.Ali! você não imagina o que é a Europa; oh! a Europa...Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das suas ambições era tornar áEuropa, falava della muitos vezes, sem acabar de tentar minha mãe nemtio Cosme, por mais que louvasse os ares e as bellezas... Não contavacom esta possibilidade de ir commigo, e lá ficar durante a eternidadedos meus estudos.--Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!XXVIIAo portão.Ao portão do Passeio, um mendigo estendeu-nos a mão. José Dias passouadiante, mas eu pensei em Capitú e no seminario, tirei dous vintens dobolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogassea Deus por mim, afim de que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos.--Sim, meu devoto!--Chamo-me Bento, accrescentei para esclarecel-o.XXVIIINa rua.José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves,como era á rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo,falava de tudo, fazia-me parar a cada passo deante de um mostradorou de um cartaz de theatro. Contava-me o enredo de algumas peças,recitava monologos em verso. Fez os recados todos, pagou contas,recebeu alugueis de casa; para si comprou um vigesimo de loteria.Afinal, o homem tezo rendeu o flexivel, e passou a falar pausado, comsuperlativos. Não vi que a mudança era natural; temi que houvessemudado a resolução assentada, e entrei a tratal-o com palavras e gestoscarinhosos, até entrarmos no omnibus.XXIXO imperador.Em caminho, encontrámos o imperador, que vinha da Escola de Medicina.O omnibus em que iamos parou, como todos os vehiculos; os passageirosdesceram á rua e tiraram o chapeu, até que o coche imperial passasse.Quanto tornei ao meu logar, trazia uma ideia fantastica, a ideia de irter com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Nãoconfiaria. esta ideia a Capitú. «Sua Majestade pedindo, mamãe cede,»pensei commigo.Vi então o imperador escutando-me, reflectindo e acabando por dizer quesim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lagrimas. Elogo me achei cm casa, á espera, até que ouvi os batedores e o piquetede cavallaria; é o imperador! é o imperador! toda a gente chegava ásjanellas para vel-o passar, mas não passava, o coche parava á nossaporta, o imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na visinhança:«O imperador entrou em casa de D. Gloria! Que será? Que não será?«A nossa familia saía a recebel-o; minha mãe era a primeira que lhebeijava a mão. Então o imperador, todo risonho, sem entrar na sala ouentrando,--não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,--pediaa minha mãe que me não fizesse padre,--e ella, lisongeada e obediente,promettia que não.--A medicina,--porque lhe não manda ensinar medicina?Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade...--Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aquibons professores. Nunca foi á nossa Escola? É uma bella Escola. Játemos medicos de primeira ordem, que pódem hombrear com os melhores deoutras terras. A medicina é uma grande sciencia; basta só isto de dara saude aos outros, conhecer as molestias, combatel-as, vencel-as... Asenhora mesma ha de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doençaera fatal, e elle não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira;mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer,Bentinho?--Mamãe querendo.--Quero, meu filho. Sua Majestade manda.Então o imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado detodos nós, a rua cheia de gente, as janellas atopetadas, um silencio deassombro; o imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gestode adeus, dizendo ainda: «A medicina, a nossa Escola.» E o coche partiaentre invejas e agradecimentos.Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fertilque a das creanças e dos namorados, nem a visão do impossivel precisamais que de um recanto de omnibus. Consolei-me por instantes, digamosminutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhosdos meus companheiros.XXXO Santissimo.Terás entendido que aquella lembrança do imperador ácerca da medicinanão era mais que a suggestão da minha pouca vontade de sair do Rio deJaneiro. Os sonhos do accordado são como os outros sonhos, tecem-sepelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá quefosse para S. Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muitotempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitú.--Parece que vae sair o Santíssimo, disse alguem no omnibus. Ouço umsino; é, creio que é em Santo Antonio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço dococheiro, o omnibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltasrapidas á cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer comsigo. Iriamostambem acompanhar o Santissimo. Effectivamente, o sino chamava osfieis áquelle serviço da ultima hora. Já havia algumas pessoas nasacristia. Era a primeira vez que me achava em momento tão grave;obedeci, a principio constrangido, mas logo depois satisfeito, menospela caridade do serviço que por me dar um officio de homem. Quando osacristão começou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido;era o meu visinho Padua, que tambem ia acompanhar o Santissimo. Deucomnosco, veiu comprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido,e apenas lhe respondeu com uma palavra secca, olhando para o padre,que lavava as mãos. Depois, como Padua falasse ao sacristão, baixinho,approximou-se delles; eu fiz a mesma cousa. Padua solicitava dosacristão uma das varas do pallio. José Dias pediu uma para si.--Ha só uma disponível, disse o sacristão.--Pois essa, disse José Dias.--Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Padua.--Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cáestava. Leve uma tocha.Padua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara,tudo isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar arivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pallioque cedesse a vara ao Padua, conhecido na parochia, como José Dias.Assim fez; mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, umavez que tinhamos outra vara disponivel, pedia-a para mim, «jovenseminarista», a quem esta distincção cabia mais direitamente. Paduaficou pallido, como as tochas. Era pôr á prova o coração de um pae. Osacristão, que me conhecia de me ver alli com minha mãe, aos domingos,perguntou de curioso se eu era devéras seminarista.--Ainda não, mas vae sel-o, respondeu José Dias piscando o olhoesquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.--Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pae de Capitú.Pela minha parte, quiz ceder-lhe a vara; lembrou-me que elle costumavaacompanhar o Santissimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha,mas que a ultima vez conseguira uma vara do pallio. A distincçãoespecial do pallio vinha de cobrir o vigario e o sacramento; para tochaqualquer pessoa servia. Foi elle mesmo que me contou e explicou isto,cheio de uma gloria pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroçocom que entrára na egreja; era a segunda vez do pallio, tanto quecuidou logo de ir pedil-o. E nada! E tornava á tocha commum, outravez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigocargo... Quiz ceder-lhe a vara; o aggregado tolheu-me esse acto degenerosidade, e pediu ao sacristão que nos puzesse, a elle e a mim, comas duas varas da frente, rompendo a marcha do pallio.Opas enfiadas, tochas distribuidas e accesas, padre e ciborio promptos,o sacristão de hyssope e campainha nos mãos, saiu o prestito árua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fieis, que seajoelhavam, fiquei commovido. Padua roía a tocha amargamente. É umametaphora, não acho outra fórma mais viva de dizer a dôr e a humilhaçãodo meu visinho. De resto, não pude miral-o por muito tempo, nem aoaggregado, que, parallelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de serelle proprio o Deus dos exercitos. Com pouco, senti-me cançado; osbraços caíam-me, felizmente a casa era perto, na rua do Senado.A enferma era uma senhora viuva, tisica, tinha uma filha de quinze oudezeseis annos, que estava chorando á porta do quarto. A moça não eraformosa, talvez nem tivesse graça; os cabellos caíam despenteados, eas lagrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Não obstante, o totalfalava e captivava o coração. O vigário confessou a doente, deu-lhe acommunhão e os santos oleos. O pranto da moça redobrou tanto que sentios meus olhos molhados e fugi. Vim para porto de uma jannela. Pobrecreatura! A dor era communicativa em si mesma; complicada da lembrançade minha mãe, doeu-me mais, e, quando emfim pensei em Capitú, senti umimpeto de soluçar tambem, enfiei pelo corredor, e ouvi alguem dizer-me:--Não chore assim!A imagem de Capitú ia commigo, e a minha imaginação, assim como lheattribuira lagrimas, ha pouco, assim lhe encheu a bocca de riso agora;vi-a escrever no muro, falar-me, andar á volta, com os braços no ar;ouvi distinctamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e avoz era della. As tochas accesas, tão lugubres na occasião, tinham-meares de um lustre nupcial... Que era lustre nupcial? Não sei; eraalguma cousa contraria á morte, e não vejo outra mais que bodas. Estanova sensação me dominou tanto que José Dias veiu a mim, e me disse aoouvido, em voz baixa:--Não ria assim!Fiquei serio depressa. Era o momento da saida. Peguei da minha vara; e,como já conhecia a distancia, e agora voltavamos para a egreja, o quefazia a distancia menor,--o peso da vara era mui pequeno. Demais, o solcá fora, a animação da rua, os rapazes da minha edade que me fitavamcheios de inveja, as devotas que chegavam ás janellas ou entravam noscorredores e se ajoelhavam á nossa passagem, tudo me enchia a alma delepidez nova.Padua, ao contrario, ia mais humilhado. Apesar de substituido por mim,não acabava de se consolar da tocha, da miseravel tocha. E comtudohavia outros que tambem traziam tocha, e apenas mostravam a composturado acto; não iam garridos, mas tambem não iam tristes. Via-se quecaminhavam com honra.XXXIAs curiosidades de Capitú.Capitú preferia tudo ao seminario. Em vez de ficar abatida com aameaça da larga separação, se vingasse a ideia da Europa, mostrou-sesatisfeita. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:--Não, Bentinho, deixemos o imperador socegado, replicou; fiquemos porora com a promessa de José Dias. Quando é que elle disse que falaria asua mãe?--Não marcou dia; prometteu que ia ver, que falaria logo que pudesse, eque me pegasse com Deus.Capitú quiz que lhe repetisse as respostas todas do aggregado, asalterações do gesto e até a pirueta, que apenas lhe contára. Pedia osom das palavras. Era minuciosa e attenta; a narração e o dialogo, tudoparecia remoer comsigo. Tambem se póde dizer que conferia, rotulava epregava na memoria a minha exposição. Esta imagem é por ventura melhorque a outra, mas a optima dellas é nenhuma. Capitú era Capitú, isto é,uma creatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se aindao não disse, ahi fica. Se disse, fica tambem. Ha conceitos que se devemincutir na alma do leitor, á força de repetição.Era tambem mais curiosa. As curiosidades de Capitú dão para umcapitulo. Eram de varia especie, explicaveis e inexplicaveis, assimuteis como inuteis, umas graves, outras frivolas; gostava de sabertudo. No collegio onde, desde os sete annos, apprendera a ler, escrevere contar, francez, doutrina e obras de agulha, não apprendeu, porexemplo, a fazer renda; por isso mesmo, quiz que prima Justtina lh'oensinasse. Se não estudou latim com o padre Cabral foi porque o padre,depois de lh'o propôr gracejando, acabou dizendo que latim não eralingua de meninas. Capitú confessou-me um dia que esta razão accendeunella o desejo de o saber. Em compensação, quiz apprender inglez comum velho professor amigo do pae e parceiro deste ao sólo, mas não foiadeante. Tio Cosme ensinou-lhe gamão.--Anda apanhar um capotinho, Capitú, dizia-lhe elle.Capitú obedecia e jogava com facilidade, com attenção, não sei se digacom amor. Um dia fui achal-a desenhando a lapís um retraio; dava osultimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido.Era o de meu pae, copiado da tela que minha mãe tinha na sala e queainda agora está commigo. Perfeição não era; ao contrario, os olhossairam esbogalhados, e os cabellos eram pequenos circulos uns sobreoutros. Mas, não tendo ella rudimento algum de arte, e havendo feitoaquillo de memoria em poucos minutos, achei que era obra de muitomerecimento; descontai-me a edade e a sympathia. Ainda assim, estouque apprenderia facilmente pintura, como apprendeu musica mais tarde.Já então namorava o piano da nossa casa, velho traste inutil, apenasde estimação. Lia os nossos romances, folheava os nossos livros degravuras, querendo saber das ruinas, das pessoas, das campanhas, onome, a historia, o lograr. José Dias dava-lhe essas noticias com certoorgulho de erudito. A erudição deste não avultava muito mais que a suahomoepathia de Cantagallo.Um dia, Capitú quiz saber o que eram as figuras da sala de visitas. Oaggregado disse-lho summariamente, demorando-se um pouco mais em Cesar,com exclamações e latins:--Cesar! Julio Cesar! Grande homem! _Tu quoque, Brute?_Capitú não achava bonito o perfil de Cesar, mas as acções citadas porJosé Dias davam-lhe gestos de admiração. Ficou muito tempo com a caravirada para elle. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem quedava a uma senhora uma perola do valor de seis milhões de sestercios!--E quanto valia cada sestercio?José Dias, não tendo presente o valor do sestercio, respondeuenthusiasmado:--É o maior homem da historia!A perola de Cesar accendia os olhos de Capitú. Foi nessa occasiãoque ella perguntou a minha mãe porque é que já não usava as joias doretrato; preferia-se ao que estava na sala, com o de meu pae; tinha umgrande collar, um diadema e brincos.--São joias viuvas, como eu, Capitú.--Quando é que botou estas?--Foi pelas festas da Coroação.--Oh! conte-me as festas da Coroação!Sabia já o que os paes lhe haviam dito, mas naturalmente tinha parasi que elles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas.Queria a noticia das tribunas da Capella Imperial e dos salões dosbailes. Nascera muito depois daquellas festas celebres. Ouvindo falarvarias vezes da Maioridade, teimou um dia em saber o que fora esteacontecimento; disseram-lh'o, e achou que o imperador fizera muitobem em querer subir ao throno aos quinze annos. Tudo era materia áscuriosidades de Capitú, mobilias antigas, alfaias velhas, costumes,noticias de Itaguahy, a infancia e a mocidade de minha mãe, um ditodaqui, uma lembrança dalli, um adagio d'acolá...XXXIIOlhos de ressaca.Tudo era materia ás curiosidades de Capitú. Caso houve, porém, no qualnão sei se apprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. Éo que contarei no outro capitulo. N'este direi sómente que, passadosalguns dias do ajuste com o aggregado, fui ver a minha amiga; eram dezhoras da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem esperou que eulhe perguntasse pela filha.--Está na sala penteando o cabello, disse-me; vá devagarzinho para lhepregar um susto.Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este póde ser que nãofosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado aum mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente daparede, entre as duas janellas. Se não foi elle, foi o pé. Um ou outro,a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabellos, toda ellavoou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:--Ha alguma cousa?--Não ha nada, respondi; vim ver você antes que o padre Cabral cheguepara a licção. Como passou a noite?--Eu bem. José Dias ainda não falou?--Parece que não.--Mas então quando fala?--Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assumpto; não vaelogo de pancada, falará assim por alto e por longe, um toque. Depois,entrará em materia. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita...--Que tem, tem, interrompeu Capitú. E se não fosse preciso alguem paravencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Diaspoderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmentenão quer ser padre, mas poderá alcançar...? Elle é attendido; se,porém... É um inferno isto! Você teime com elle, Bentinho.--Teimo; hoje mesmo elle ha de falar.--Você jura?--Juro! Deixe ver os olhos, Capitú.Tinha-me lembrado a definição que José dera delles, «olhos de ciganaobliqua e dissimulada.» Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimuladasabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitú deixou-se fitar eexaminar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada acheiextraordinário; a côr e a doçura eram minhas lhe deu outra ideiado meu intento; imaginou que era um pretexto para miral-os mais deperto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados nelles, e á istoattribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com talexpressão que...Rhetorica dos namorados, dá-me uma comparação exacta e poetica paradizer o que foram aquelles olhos de Capitú. Não me acode imagem capazde dizer, sem quebra da dignidade do estylo, o que elles foram e mefizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquellafeição nova. Traziam não sei que fluido mysterioso e energico, umaforça que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia,nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me ás outraspartes visinhas, ás orelhas, aos braços, aos cabellos espalhados peloshombros; mas tão depressa buscava as pupillas, a onda que saía dellasvinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me etragar-me. Quantos minutos gastámos naquelle jogo? Só os relogios doceu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suaspendulas nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração dasfelicidades e dos supplicios. Ha de dobrar o gozo aos bemaventuradosdo ceu conhecer a somma dos tormentos que já terão padecido no infernoos seus inimigos; assim tambem a quantidade das delicias que terãogozado no ceu os seus desaffectos augmentará as dores aos condemnadosdo inferno. Este outro supplicio escapou ao divino Dante; mas eu nãoestou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de umtempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabellos de Capitú,mas então com as mãos, e disse-lhe,--para dizer alguma cousa,--que eracapaz de os pentear, se quizesse.--Você?--Eu mesmo.--Vae embaraçar-me o cabello todo, isso, sim.--Se embaraçar, você desembaraça depois.--Vamos ver.XXXIIIO penteado.Capitú deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe doscabellos, colhi-os todos e entrei a alisal-os com o pente, desde atesta até ás ultimas pontas, que lhe desciam á cintura. Em pé não davageito: não esquecestes que ella era um nadinha mais alta que eu, masainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.--Senta aqui, é melhor.Sentou-se. «Vamos ver o grande cabelleireiro», disse-me rindo.Continuei a alisar os cabellos, com muito cuidado, e dividi-os em duasporções eguaes, para compor as duas trancas. Não as fiz logo, nem assimdepressa, como podem suppôr os cabelleireiros de officio, mas devagar,devagarinho, saboreando pelo tacto aquelles fios grossos, que eramparte della. O trabalho era atrapálhado, ás vezes por desaso, outrasde proposito, para desfazer o feito e refazel-o. Os dedos roçavam nanuca da pequena ou nas espaduas vestidas de chita, e a sensação eraum deleite. Mas, emfim, os cabellos iam acabando, por mais que eu osquizesse interminaveis. Não pedi ao ceu que elles fossem tão longoscomo os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que osvelhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteal-os portodos os seculos dos seculos, tecer duas tranças que pudessem envolvero infinito por um numero innominavel de vezes. Se isto vos pareceremphatico, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nuncapuzestes aos mãos adolescentes na joven cabeça de uma nympha... Umanympha! Todo eu estou mythologico. Ainda ha pouco, falando dos seusolhos de ressaca, cheguei a escrever Thetis; risquei Thetis, risquemosnympha; digamos somente uma creatura amada, palavra que envolve todasas potencias christãs e pagãs. Emfim, acabei as duas tranças. Ondeestava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um tristepedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por umlaço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando alli, até que exclamei:--Prompto!--Estará bom?--Veja no espelho.Em vez de ir ao espelho, que pensaes que fez Capitú? Não vos esqueçaesquo estava sentada, de costas para mim. Capitú derreou a cabeça, a talponto que me foi preciso acudir com as mãos e amparal-a; o espaldarda cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ella, rosto a rosto,mas trocados, os olhos de um na linha da bocca do outro. Pedi-lhe quelevantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei adizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.--Levanta, Capitú!Não quiz, não levantou a cabeça, e ficámos assim a olhar um para ooutro, até que ella abrochou os labios, eu desci os meus, e...Grande foi a sensação do beijo; Capitú ergueu-se, rapida, eu recueiaté á parede com uma especie de vertigem, sem fala, os olhos escuros.Quando elles me clarearam, vi que Capitú tinha os seus no chão. Nãome atrevi a dizer nada; ainda que quizesse, faltava-me lingua. Preso,atordoado, não achava gesto nem impeto que me descolasse da parede e meatirasse a ella com mil palavras callidas e mimosas... Não mofes dosmeus quinze annos, leitor precoce. Com dezesete, Des Grieux (e mais eraDes Grieux) não pensava ainda na differença dos sexos.XXXIVSou homem!Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitú compoz-sedepressa, tão depressa que, quando a mãe apontou á porta, ellaabanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarello. nenhuma contracção deacanhamento, um riso espontaneo e claro, que ella explicou por estaspalavras alegres:--Mamãe, olhe como este senhor cabelleireiro me penteou; pediu-me paraacabar o penteado, e fez isto. Veja que tranças!--Que tem? acudiu a mãe, transbordando de benevolencia. Está muito bem,ninguem dirá que é de pessoa que não sabe pentear.--O que, mamãe? Isto? redarguiu Capitú desfazendo as tranças. Ora,mamãe!E com um enfadamento gracioso e voluntario que ás vezes tinha, pegoudo pente e alisou os cabellos para renovar o penteado. D. Fortunatachamou-lhe tonta, e disse-me que não fizesse caso, não era nada,maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ella. Depois,parece-me que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido á parede,achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado, e sorriu pordissimulação...Como eu quizesse falar tambem para disfarçar o meu estado, chameialgumas palavras cá de dentro, e ellas acudiram de prompto, mas deatropello, e encheram-me a bocca sem poder sair nenhuma. O beijo deCapitú fechava-me os labios. Uma exclamação, um simples artigo, pormais que investissem com força, não logravam romper de dentro. E todasas palavras recolheram-se ao coração, murmurando: «Eis aqui um que nãofará grande carreira no mundo, por menos que as emoções o dominem...»Assim, apanhados pela mãe, éramos dous e contrarios, ella encobrindocom a palavra o que eu publicava pelo silencio. D. Fortunata tirou-medaquella hesitação, dizendo que minha mãe me mandára chamar para alicção de latim; o padre Cabral estava á minha espera. Era uma saida;despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe censurava asmaneiras da filha, mas a filha não dizia nada.Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas não passei a sala dalicção; sentei-me na cama, recordando o penteado e o resto. Tinhaestremeções, linha uns esquecimentos em que perdia a consciencia demim e das cousas que me rodeavam, para viver não sei onde nem como.E tornava a mim, e via a cama, as paredes, os livros, o chão, ouviaalgum som de fóra, vago, proximo ou remoto, e logo perdia tudo parasentir sómente os beiços de Capitú... Sentia-os estirados, embaixo dosmeus, egualmente esticados para os della, e unindo-se uns aos outros.De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra deorgulho:--Sou homem!Suppuz que me tivessem ouvido, porque a palavra saiu em voz alta, ecorri á porta da alcova. Não havia ninguem fóra. Voltei para dentro,e, baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o éco aos meusouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo não o teve maior,descobrindo a America, e perdoai a banalidade em favor do cabimento;com effeito, ha em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante eum sol de Outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me deslumbroutanto. A denuncia de José Dias alvoroçara-me, a licção do velhocoqueiro tambem, a vista dos nossos nomes abertos por ella no muro doquintal deu-me grande abalo, como vistes; nada disso valeu a sensaçãodo beijo. Podiam ser mentira ou illusão. Sendo verdade, eram os ossosda verdade, não eram a carne e o sangue della. As proprias mãostocadas, apertadas, como que fundidas, não podiam dizer tudo.--Sou homem!Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no seminario, mas comose pensa em perigo que passou, um mal abortado, um pesadelo extincto;todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. O sangueera da mesma opinião. Outra vez senti os beiços de Capitú. Talvez abusoum pouco das reminiscencias osculares; mas a saudade é isto mesmo; é opassar e repassar das memorias antigas. Ora, de todas as daquelle tempocreio que a mais doce é esta, a mais nova, a mais comprehensiva, a queinteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas e numerosas,doces tambem, de varia especie, muitas intellectuaes, egualmenteintensas. Grande homem que fosse, a recordação era menor que esta.XXXVO protonotario apostolico.Enfim, peguei dos livros e corri á licção. Não corri precisamente; ameio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, e podiamler-me no semblante alguma cousa. Tive ideia de mentir, allegar umavertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causariaa minha mãe fez-me rejeital-a. Pensei em prometter algumas dezenasde padre-nossos; tinha, porém, outra promessa em aberto e outrofavor pendente... Não, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres,conversavam cuidadosamente. Quando entrei na sala, ninguem ralhoucommigo.O padre Cabral recebera na vespera um recado do internuncio; foiter com elle, e soube que, por decreto pontificio, acabava de sernomeado protonotario apostolico. Esta distincção do papa dera-lhegrande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justinarepetiam o titulo com admiração; era a primeira vez que elle soava aosnossos ouvidos, acostumados a conegos, monsenhores, bispos, nuncios,e internuncios; mas que era protonotario apostolico? O padre Cabralexplicou que não era propriamente o cargo da curia, mas as honrasdelle. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete, e repetia:--Protonotario apostolico!E voltando-se para mim:--Prepara-te, Bentinho; tu pódes vir a ser protonotario apostolico.Cabral ouvia com gosto a repetição do titulo. Estava em pé, dava algunspassos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O tamanho do titulocomo que lhe dobrava a magnificencia, posto que, para ligal-o ao nome,era demasiado comprido; esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez.Padre Cabral acudiu que não era preciso dizel-o todo, bastava que lhechamassem o protonotario Cabral. Subentendia-se apostolico.--Protonotario Cabral.--Sim, tem razão; protonotario Cabral.--Mas, Sr. protonotario,--acudiu prima Justina para se ir acostumandoao uso do titulo,--isto o obriga a ir a Roma?--Não, D. Justina.--Não, são só as honras, observou minha mãe.--Agora, não impede,--disse Cabral, que continuava a reflectir,--nãoimpede que nos casos de maior formalidade, actos publicos, cartasde cerimonia, etc., se empregue o titulo inteiro: protonotarioapostolico. No uso commum, basta protonotario.--Justamente, assentiram todos.José Dias, que entrou pouco depois de mim, applaudiu a distincção, erecordou, a proposito, os primeiros actos politicos de Pio IX, grandesesperanças da Italia; mas ninguem pegou do assumpto; o principal dahora e do logar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a mimdo receio, entendi que devia comprimental-o tambem, e este applausonão lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me na bochechapaternalmente, e acabou dando-me férias. Era muita felicidade para umasó hora. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo,porque tio Cosme, sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas José Diascorrigiu a alegria:--Não tem que festejar a vadiação; o latim sempre lhe ha de serpreciso, _ainda que não venha a ser padre._Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lançada áterra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da familia.Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas respondeulogo:--Ha de ser padre, e padre bonito.--Não esqueça, mana Gloria, e protonotario tambem. Protonotarioapostolico.--O protonotario Santiago, accentuou Cabral.Se a intenção tio meu mestre de latim era ir acostumando ao uso dotitulo com o nome, não sei bem; o que sei é que quando ouvi o meunome ligado a tal titulo, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas avontade aqui foi antes uma ideia, uma ideia sem lingua, que se deixouficar quieta e muda, tal como d'ahi a pouco outras ideias... Masessas pedem um capitulo especial. Rematemos este dizendo que o mestrede latim falou algum tempo da minha ordenação ecclesiastica, aindaque sem grande interesse. Elle buscava um assumpto alheio para semostrar esquecido da propria gloria, mas era esta que o deslumbrava naoccasião. Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas. Algunsdefeitos tinha; o mais excelso delles era ser guloso, não propriamenteglotão; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cosinha,se era simples, era menos pobre que a delle. Assim, quando minha mãelhe disse que viesse jantar, afim de se lhe fazer uma saude, os olhoscom que acceitou seriam de protonotario, mas não eram aposlolicos. Epara agradar a minha mãe novamente pegou em mim, descrevendo o meufuturo ecclesiastico, e queria saber se ia para o seminario agora, noanuo proximo, e offerecia-se a falar ao «senhor bispo», tudo marchetadodo «protonotario Santiago.»XXXVIIdeia sem pernas e ideia sem braços.Deixei-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar naaventura da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e até comlatim. Ao cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo á casa visinha,agarrar Capitú, desfazer-lhe as tranças, refazel-as e concluil-asdaquella maneira particular, bocca sobre bocca. É isto, vamos, éisto... Ideia só! ideia sem pernas! As outras pernas não queriam corrernem andar. Muito depois é que sairam vagarosamente e levaram-me ácasa de Capitú. Quando alli cheguei, dei com ella na sala, na mesmasala, sentada na marqueza, almofada no regaço, cosendo em paz. Não meolhou de rosto, mas a furto e a medo, ou, se preferes a phraseologiado aggregado, obliqua e dissimulada. As mãos pararam, depois deencravada a agulha no panno. Eu, do lado opposto da mesa, não sabia quefizesse; e outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim gastámosalguns minutos compridos, até que ella deixou inteiramente a costura,ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ella, e perguntei se a mãe haviadito alguma cousa; respondeu-me que não. A bocca com que respondeu eratal que cuido haver-me provocado um gesto de approximação. Certo é queCapitú recuou um pouco.Era occasião de pegal-a, puxal-a e beijal-a... Ideia só ideia sembraços! Os meus ficaram caidos e mortos. Não conhecia nada daEscriptura. Se conhecesse, é provavel que o espirito de Satanaz mefizesse dar a lingua mystica do _Cantico_ um sentido directo e natural.Então obedeceria ao primeiro versiculo; «Applique elle os labios,dando-me o osculo da sua bocca.» E pelo que respeita aos braços, quetinha inertes, bastaria cumprir o vers. 6.o do cap. II:«A sua mão esquerda se pôz já debaixo da minha cabeça, e a sua mãodireita me abraçará depois.» Vedes ahi a chronologia dos gestos. Era sóexecutal-a; mas ainda que eu conhecesse o texto, as attitudes de Capitúeram agora tão retrahidas, que não sei se não continuaria parado, foiella entretanto, que me tirou daquella situação.XXXVIIA alma é cheia de mysterios.Padre Cabral eslava esperando ha muito tempo?--Hoje não dei licção; tive férias.Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe tambem que o padre Cabralfalara da minha entrada no seminario, apoiando a resolução de minhamãe, e disse delle cousas feias e duras. Capitú reflectiu algum tempo,e acabou perguntando-me se podia ir comprimentar o padre, á tarde, emminha casa.--Póde, mas para que?Papae naturalmente ha de querer ir tambem, mas é melhor que elle vá ácasa do padre; é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiurindo.O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça comsigo mesma, umavez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça,e, para dizer tudo, quiz provar-lhe que era moça inteira. Peguei-lhelevemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado etremulo. Era a ideia com mãos. Quiz puxar as de Capitú, para obrigal-aa vir atraz dellas, mas ainda agora a acção não respondeu á intenção.Comtudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguem; não vivia comrapazes, que me ensinassem anecdotas de amor. Não conhecia a violaçãode Lucrecia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha dopadre Pereira e eram patricios de Poncio Pilatos. Não nego que o finaldo penteado da manhã era um grande passo no caminho da movimentaçãoamorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrario deste. Demanhã, ella derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que oslances differiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houvecontraste.Penso que ameacei puxal-a a mim. Não juro, começava a estar tãoalvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus actos; masconcluo que sim, porque ella recuou e quiz tirar as mãos das minhas;depois, talvez por não poder recuar mais, collocou um dos pés adeantee o outro atraz, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigoua reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cançou e cedeu, mas acabeça não quiz ceder tambem, e, caida para traz, inutilisava lodosos meus esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Nãoconhecendo a licção do _Cantico_, não me acudiu estender a mão esquerdapor baixo do cabeça della; demais, este gesto suppõe um accordo devontades, e Capitú, que me resistia agora, aproveitaria o gesto paraarrancar-se á outra mão e fugir-me inteiramente. Ficámos naquelle luta,sem estrepito, porque apesar do ataque e da defesa, não perdiamos acautela necessaria para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheiade mysterios. Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar, atéque cançou; mas então foi a vez da bocca. A bocca de Capitú iniciou ummovimento inverso, relativamente á minha, indo para um lado, quandoeu a buscava do lado opposto. Naquelle desencontro estivemos, sem queousasse um pouco mais, e bastaria um pouco mais...Nisto ouvimos bater á porta e falar no corredor. Era o pae de Capitú,que voltava da repartição um pouco mais cedo, como usava ás vezes.«Abre, Nanata! Capitú, abre!» Apparentemente era o mesmo lance damanhã, quando a mãe deu comnosco, mas só apparentemente; em verdade,era outro. Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de D.Fortunata foi um aviso para que nos compuzessemos. Agora lutavamos comas mãos presas, e nada estava sequer começado.Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno; era a mãeque abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempode soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tental-o, masCapitú, antes que o pae acabasse de entrar, fez um gesto inesperado,pousou a bocca na minha bocca, e deu de vontade o que estava a recusará força. Repito, a alma é cheia de mysterios.XXXVIIIQue susto, meu Deus!Quando Padua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas,Capitú, em pé, de costas para mim, inclinada sobre a costura, como arecolhel-a, perguntava em voz alta:--Mas, Bentinho, que ó protonotario apostolico?--Ora, vivam! exclamou o pae.--Que susto, meu Deus!Agora é que o lance é o mesmo; mas se conto aqui, taes quaes, osdous lances de ha quarenta annos, é para mostrar que Capitú não sedominava só em presença da mãe; o pae não lhe metteu mais medo. Nomeio de uma situação que me atava a lingua, usava da palavra com amaior ingenuidade deste mundo. A minha persuasão é que o coração nãolhe batia mais mais nem menos. Allegou susto, e deu á cara um ar meioenfiado; mas eu, que sabia tudo, vi que era mentira e fiquei cominveja. Foi logo falar ao pae, que apertou a minha mão, e quiz saberporque a filha falava em protonotario apostolico. Capitú repeliu-lheo que ouvira de mim, e opinou logo que o pae devia ir comprimentar opadre em casa delle; ella iria á minha. E colligindo os petrechos dacostura, enfiou pelo corredor, bradando infantilmente:--Mamãe, jantar, papae chegou!XXXIXA vocação.Padre Cabral estava naquella primeira hora das honras em que asminimas congratulações valem por odes. Tempo chega em que osdignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara morta,sem agradecimentos. O alvoroço da primeira hora é melhor; esse estadoda alma que vê na inclinação do arbusto, tocado do vento, um parabémda flora universal, traz sensações mais intimas e finas que qualqueroutro. Cabral ouviu as palavras de Capitú com infinito prazer.--Obrigado, Capitú, muito obrigado; estimo que você goste tambem. Papaeestá bom? E mamãe? A voce não se pergunta; essa cara é mesmo de quemvende saude. E como vamos de rezas?A todas as perguntas, Capitú ia respondendo promptamente e bem.Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. Não entrou com afamiliaridade do costume, deteve-se um instante á porta da sala, antesde ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. Como désse a este, duasvezes em cinco minutos, o titulo de protonotario, José Dias, para sedesforrar da concurrencia, fez um pequeno discurso em honra «ao coraçãopaternal e augustissimo de Pio IX.»--Você é um grande _prosa_, disse tio Cosme, quando elle acabou.José Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou os louvores doaggregado, sem os seus superlativos; ao que este accrescentou queo cardeal Mastai evidentemente fôra talhado para a tiára desde oprincipio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:--A vocação é tudo. O estado ecclesiastico é perfeitissimo, comtantoque o sacerdote venha já destinado do berço. Não havendo vocação, falode vocação sincera e real, um joven póde muito bem estudar as lettrashumanas, que tambem são uteis e honradas.Padre Cabral retorquia:--A vocação é muito, mas o poder de Deus é soberano. Um homem póde nãoter gosto á egreja e até perseguil-a, e um dia a voz de Deus lhe fala,e elle sae apostolo; veja S. Paulo.--Não contesto, mas o que eu digo é outra cousa. O que eu digo é que sepóde muito bem servir a Deus sem ser padre, cá fóra; póde-se ou não sepóde?--Póde-se.--Pois então! exclamou José Dias triumphalmente, olhando em volta desi. Sem vocação é que não ha bom padre, e em qualquer profissão liberalse serve a Deus, como todos devemos.--Perfeitamente, mas vocação não é só do berço que se traz.--Homem, é a melhor.--Um moço sem gosto nenhum á vida ecclesiastica póde acabar por sermuito bom padre; tudo é que Deus o determine. Não me quero dar pormodelo, mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina; meupadrinho, que era coadjutor de Santa Rita, teimou com meu pae para queme mettesse no seminario; meu pae cedeu. Pois, senhor, tomei tal gostoaos estudos e á companhia dos padres, que acabei ordenando-me. Mas,supponha que não acontecia assim, e que eu não mudava de vocação, o queé que acontecia? Tinha estudado no seminario algumas materias que é bomsaber, e são sempre melhor ensinadas naquellas casas.Prima Justina interveiu:--Como? Então póde-se entrar para o seminario e não sair padre?Padre Cabral respondeu que sim, que se podia, e, voltando-se paramim, falou da minha vocação, que era manifesta; os meus brinquedosforam sempre de egreja, e eu adorava os officios divinos. A provanão provava; todas as creanças do meu tempo eram devotas. Cabralaccrescentou que o reitor de S. José, a quem contara ultimamente apromessa de minha mãe, tinha o meu nascimento por milagre; elle erada mesma opinião. Capitú, cosida ás saias de minha mãe, não attendiaaos olhos anciosos que eu lhe mandava; tambem não parecia escutar aconversação sobre o seminario e suas consequencias, e, aliás, decorou oprincipal, como vim a saber depois. Duas vezes fui á janella, esperandoque ella fosse tambem, e ficassemos á vontade, sósinhos, até acabar omundo, se acabasse, mas Capitú não me appareceu. Não deixou minha mãe,senão para ir embora. Eram ave-marias, despediu-se.--Vae com ella, Bentinho, disse minha mãe.--Não precisa, não, D. Gloria, acudiu ella rindo, eu sei o caminho.Adeus, Sr. protonotario...--Adeus, Capitú.Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala, é claro que omeu dever, o meu gosto, todos os impulsos da edade e da occasiãoeram atravessal-a de todo, seguir a visinha corredor fóra, descer áchacara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, e despedir-me. Nãome importou a recusa, que cuidei simulada, e enfiei pelo corredor;mas, Capitú que ia depressa, estacou e fez-me signal que voltasse. Nãoobedeci; cheguei-me a ella.--Não venha, não; amanhã falaremos.--Mas eu queria dizer a você...--Amanhã.--Escuta!--Fica!Falava baixinho; pegou-me na mão, e poz o dedo na bocca. Uma preta,que veiu de dentro accender o lampião do corredor, vendo-nos naquellaattitude, quasi ás escuras, riu de sympathia e murmurou em tom queouvissemos alguma cousa que não entendí bem nem mal. Capitú segredou-meque a escrava desconfiara, e ia talvez contar ás outras. Novamente meintimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me estar parado, pregado,agarrado ao chão.XLUma egua.Ficando só, reflecti algum tempo, e tive uma fantasia. Já conheceis asminhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a destacasa do Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavallos... A imaginaçãofoi a companheira de toda a minha existencia, viva, rapida, inquieta,alguma vez timida e amiga de empacar, as mais dellas capaz de engolircampanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tacito que aseguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nelle, foi n'outro autorantigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Nesteparticular, a minha imaginação era uma grande egua ibera; a menor brisalhe dava um potro, que saía logo cavallo de Alexandre; mas deixemosmetaphoras atrevidas e improprias dos meus quinze annos. Digamos ocaso simplesmente. A fantasia daquella hora foi confessar a minha mãeos meus amores para lhe dizer que não tinha vocação ecclesiastica. Aconversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira, e, ao passo queme assustava, abria-me uma porta de saida. «Sim, é isto, pensei; voudizer a mamãe que não tenho vocação e confesso o nosso namoro; se elladuvidar, conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o resto... »XLIA audiencia secreta.O resto fez-me ficar mais algum tempo, no corredor, pensando. Vi entraro doutor João da Costa, e preparou-se logo o voltarete do costume.Minha mãe saiu da sala, e, dando commigo, perguntou se acompanharaCapitú.--Não, senhora, ella foi só.E quasi investindo para ella:--Mamãe, eu queria dizer-lhe uma cousa.--Que é?Toda assustada, quiz saber o que é que me doia, se a cabeça, se opeito, se o estomago, e apalpava-me a testa para ver se tinha febre.--Não tenho nada, não, senhora.--Mas então que é?--É uma cousa, mamãe... Mas, escute, olhe, é melhor depois do chá;logo... Não é nada mau; mamãe assusta-se por tudo; não é cousa decuidado.--Não é molestia?--Não, senhora.--É, isso é volta de constipação. Disfarças para não tomar suadouro,mas tu estás constipado; conhece-se pela voz.Tentei rir, para mostrar que não tinha nada. Nem por isso permittiuadiar a confidencia, pegou em mim, levou-me ao quarto della, accendeuvela, e ordenou-me que lhe dissesse tudo. Então eu perguntei-lhe, paraprincipiar, quando é que ia para o seminario.--Agora só para o anno, depois das férias.--Vou... para ficar?--Como ficar?--Não volto para casa?--Voltas aos sabbados e pelas férias; é melhor. Quando te ordenarespadre, vens morar commigo.Enxuguei os olhos e o nariz. Ella afagou-me, depois quizreprehender-me, mas creio que a voz lhe tremia, e pareceu-me que tinhaos olhos humidos. Disse-lhe que tambem sentia a nossa separação. Negouque fosse separação; era só alguma ausencia, por causa dos estudos; sóos primeiros dias. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros eaos mestres, e acabaria gostando de viver com elles.--Eu só gosto de mamãe.Não houve calculo nesta palavra, mas estimei dizel-a, por fazer crerque ella era a minha unica affeição; desviava as suspeitas de cimade Capitú. Quantas intenções viciosas ha assim que embarcam, a meiocaminho, n'uma phrase innocente e pura! Chega a fazer suspeitar que amentira é, muita vez, tão involuntaria como a transpiração. Por outrolado, leitor amigo, nota que eu queria desviar as suspeitas de cima deCapitú, quando havia chamado minha mãe justamente para confirmal-as;mas as contradicções são deste mundo. A verdade é que minha mãe eracandida como a primeira aurora, anterior ao primeiro peccado; nempor simples intuição era capaz de deduzir uma cousa de outra, istoé, não concluiria da minha repentina opposição que eu andasse emsegredinhos com Capitú, como lhe dissera José Dias. Calou-se durantealguns instantes; depois replicou-me sem imposição nem autoridade, oque me veiu animando á resistencia. Dahi o falar-lhe na vocação que sediscutira naquella tarde, e que eu confessei não sentir em mim.--Mas tu gostavas tanto de ser padre, disse ella; não te lembras queaté pedias para ir ver sair os seminaristas de S. José, com as suasbatinas? Em casa, quando José Dias te chamava Reverendissimo, tu riascom tanto gosto! Como é que agora...? Não creio, não, Bentinho. Edepois... Vocação? Mas a vocação vem com o costume, continuou repetindoas reflexões que ouvira ao meu professor de latim.Como eu buscasse contestal-a, reprehendeu-me sem aspereza, mas comalguma força, e eu tornei ao filho submisso que era. Depois, aindafalou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera; não me disseas circumstancias, nem a occasião, nem os motivos della, cousas que sóvim a saber mais tarde. Affirmou o principal, isto é, que a havia documprir, em pagamento a Deus.--Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua existencia, não lhe hei dementir nem faltar, Bentinho; são cousas que não se fazem sem peccado, eDeus que é grande e poderoso, não me deixaria assim, não, Bentinho; eusei que seria castigada e bem castigada. Ser padre é bom e santo; vocêconhece muitos, como o padre Cabral, que vive tao feliz com a irmã; umtio meu tambem foi padre, e escapou de ser bispo, dizem... Deixa demanha, Bentinho.Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos, que ella emendoulogo a palavra; manha, não, não podia ser manha, sabia muito bem queeu era amigo della, e não seria capaz de fingir um sentimento que nãotivesse. Molleza é o que queria dizer, que me deixasse de molleza, queme fizesse homem e obedecesse ao que cumpria, em beneficio della e parabem da minha alma. Todas essas cousas e outras foram ditas um poucoatropelladamente, e a voz não lhe saia clara, mas velada e esganada.Vi que a emoção della era outra vez grande, mas não recuava dos seuspropositos, e aventurei-me a perguntar-lhe:--E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa?--Não, não peço. Estás tonto, Bentinho? E como havia de saber que Deusme dispensava?--Talvez em sonho; eu sonho as vezes com anjos e santos.--Tambem eu, num filho; mas é inútil... Vamos, é tarde; vamos para asala. Está entendido: no primeiro ou no segundo mez do anno que vem,irás para o seminario. O que eu quero é que saibas bem os livros queestás estudando; é bonito, não só para ti, como para o padre Cabral. Noseminario ha interesse em conhecer-te, porque o padre Cabral fala de ticom enthusiasmo.Caminhou para a porta, saimos ambos. Antes de sair, voltou-se para mim,e quasi a vi saltar-me ao collo e dizer-me que não seria padre. Esteera já o seu desejo intimo, á proporção que se approximava o tempo.Quizera um modo de pagar a divida contrahida, outra moeda, que valessetanto ou mais, e não achava nenhuma.XLIICapitú reflectindo.No dia seguinte fui á casa visinha, logo que pude. Capitú despedia-sede tres amigas que tinham ido visital-a, Paula e Sandia, companheirasde collegio, aquella de quinze, esta de desessete annos, a primeirafilha de um medico, a segunda de um commerciante de objectosamericanos. Estava abatida, trazia um lenço atado na cabeça; a mãecontou-me que fora excesso de leitura na vespera, antes e depoisdo chá, na sala e na cama, até muito depois da meia noite, e comlamparina...--Se eu accendesse vela, mamãe zangava-se. Já estou boa.E como desatasse o lenço, a mãe disse-lhe timidamente que era melhoratal-o, mas Capitú respondeu que não era preciso, estava boa.Ficámos sós na sala; Capitú continuou a narração da mãe, accrescentandoque passara mal por causa do que ouvira em minha casa. Tambem eu lhecontei o que se déra commigo, a entrevista com minha mãe, as minhassupplicas, as lagrimas della, e por fim as ultimas respostas decisivas:dentro de dous ou tres mezes iria para o seminario. Que fariamos agora?Capitú ouvia-me com attenção sofrega, depois sombria; quando acabei,respirava a custo, como prestes a estalar de colera, mas conteve-se.Ha tanto tempo que isto succedeu que não posso dizer com segurança sechorou devéras, ou se sómente enxugou os olhos; cuido que os enxugousómente. Vendo-lhe o gesto, peguei-lhe na mão para animal-a, mas tambemeu precisava ser animado. Caimos no canapé, e ficámos a olhar para oar. Minto; ella olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo que a vi assim...Mas eu creio que Capitú olhava para dentro de si mesma, emquanto queeu fitava devéras o chão, o roido das fendas, duas moscas andando e umpé de cadeira lascado. Era pouco, mas distraía-me da afflicção. Quandotornei a olhar para Capitú, vi que não se mexia, e fiquei com tal medoque a sacudi brandamente. Capitú tornou cá para fora e pediu-me queoutra vez lhe contasse o que se passára com minha mãe. Satisfil-a,attenuando o texto desta vez, para não amofinal-a. Não me chamesdissimulado, chama-me compassivo; é certo que receiava perder Capitú,se lhe morressem as esperanças todas, mas doia-me vel-a padecer. Agora,a verdade ultima, a verdade das verdades, é que já me arrependia dehaver falado a minha mãe, antes de qualquer trabalho effectivo porparte de José Dias; examinando bem, não quizera ter ouvido um desenganoque eu reputava certo, ainda que demorado. Capitú reflectia, reflectia,reflectia...XLIIIVocê tem medo?De repente, cessando a reflexão, fitou em mim os olhos de ressaca, eperguntou-me se tinha medo.--Medo?--Sim, pergunto se você tem medo.--Medo de que?--Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, do andar, de trabalhar...Não entendi. Se ella me tem dito simplesmente: «Vamos embora!» pódeser que eu obedecesse ou não; em todo caso, entenderia. Mas aquellapergunta assim, vaga e solta, não pude atinar o que era.--Mas... não entendo. De apanhar?--Sim.--Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada?Capitú fez um gesto de impaciencia. Os olhos de ressaca não se mexiame pareciam crescer. Sem saber de mim, e, não querendo interrogal-anovamente, entrei a cogitar d'onde me viriam pancadas, e porque, etambem porque é que seria preso, e quem é que me havia de prender.Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube, uma casa escura e infecta.Tambem vi a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Correcção.Todas essas bellas instituições sociaes me envolviam no seu mysterio,sem que os olhos de ressaca de Capitú deixassem de crescer para mim,a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. O erro de Capitú foinão deixal-os crescer infinitamente, antes diminuir até ás dimensõesnormaes, e dar-lhes o movimento do costume. Capitú tornou ao que era,disse-me que estava brincando, não precisava affligir-me, e, com umgesto cheio de graça, bateu-me na casa sorrindo, e disse:--Medroso!--Eu? Mas...--Não é nada, Bentinho. Pois quem é que ha de dar pancada ou prendervocê? Desculpe que eu hoje estou meia maluca; quero brincar, e...--Não, Capitú; você não está brincando; nesta occasião, nenhum de nóstom vontade de brincar.--Tem razão, foi só maluquice; até logo.--Como até logo?--Está-me voltando a dôr do cabeça; vou botar uma rodella de limão nasfontes.Fez o que disse, e atou o lenço outra vez na testa. Em seguida,acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim; mas, ainda ahi nosdetivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do poço. Ventava,o ceu estava coberto. Capitú falou novamente da nossa separação, comode um facto certo e definitivo, por mais que eu, receioso disso mesmo,buscasse agora razões para animal-a. Capitú, quando não falava, riscavano chão, com um pedaço cie taquara, narizes e perfis. Desde que semettera a desenhar, era uma das suas diversões; tudo lhe servia depapel e lapis. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ella nomuro, quiz fazer o mesmo no chão, e pedi-lhe a taquara. Não me ouviu ounão me attendeu.XLIVO primeiro filho.--Dê cá, deixe escrever uma cousa.Capitú olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definiçãode José Dias, obliquo e dissimulado; levantou o olhar, sem levantar osolhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:--Diga-me uma cousa, mas fale verdade, não quero disfarce; ha deresponder com o coração na mão.--Que é? Diga.--Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe, a quem é queescolhia?--Eu?Fez-me signal que sim.--Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe não é capaz de meperguntar isso.--Pois, sim, mas eu pergunto. Supponha você que está no seminario erecebe a noticia de que eu vou morrer...--Não diga isso!--... Ou que me mato de saudades, se você não vier logo, e sua mãe nãoquizer que você venha, diga-me, você vem?--Venho.--Contra a ordem de sua mãe?--Contra a ordem de mamãe.--Você deixa seminario, deixa sua mãe, deixa tudo, para me ver morrer?--Não fale em morrer, Capitú!Capitú teve um risinho descorado e incredulo, e com a taquara escreveuuma palavra no chão; inclinei-me e li: _mentiroso._Era tão extranho tudo aquillo, que não achei resposta. Não atinava coma razão do escripto, como não atinava com a do falado. Se me acudissealli uma injuria grande ou pequena, é possivel que a escrevesse tambem,com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia.Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguem nos pudesse ouvir ouler. Quem, se eramos sós? D. Fortunata chegara uma vez á porta da casa,mas entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umasandorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morrode Santa Theresa; ninguem mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, narua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhosdo Padua. Nada mais, ou sómente este phenomeno curioso, que o nomeescripto por ella, não só me espiava do chão com gesto escarninho,mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma ideia ruim;disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podiaacceital-a sem grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu sentia asecreta esperança de vel-a atirar-se a mim lavada em lagrimas. Capitúlimitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:--Padre é bom, não ha duvida; melhor que padre só conego, por causa dasmeias roxas. O roxo é côr muito bonita. Pensando bem, é melhor conego.--Mas não se póde ser conego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eumordendo os beiços.--Bem; comece pelas meias pretas, depois virão as roxas. O que eu nãoquero perder é a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestidoá moda, saia balão e babados grandes... Mas talvez nesse tempo a modaseja outra. A egreja ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.--Ou Candelaria.EOT;/*End of the Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ******** This file should be named 55752-8.txt or 55752-8.zip *****This and all associated files of various formats will be found in:http://www.gutenberg.org/5/5/7/5/55752/Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at FreeLiterature (online soon in an extended version,also linkingto free sources for education worldwide ... MOOC's,educational materials,...) 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The Foundation's EIN or federal tax identificationnumber is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg LiteraryArchive Foundation are tax deductible to the full extent permitted byU.S. federal laws and your state's laws.The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with themailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but itsvolunteers and employees are scattered throughout numerouslocations. Its business office is located at 809 North 1500 West, SaltLake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up todate contact information can be found at the Foundation's web site andofficial page at www.gutenberg.org/contactFor additional contact information:Dr. Gregory B. NewbyChief Executive and Directorgbnewby@pglaf.orgSection 4. 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Hart was the originator of the ProjectGutenberg-tm concept of a library of electronic works that could befreely shared with anyone. For forty years, he produced anddistributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network ofvolunteer support.Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printededitions, all of which are confirmed as not protected by copyright inthe U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do notnecessarily keep eBooks in compliance with any particular paperedition.Most people start at our Web site which has the main PG searchfacility: www.gutenberg.orgThis Web site includes information about Project Gutenberg-tm,including how to make donations to the Project Gutenberg LiteraryArchive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how tosubscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.*/}